Cláudia Barberato
De Londrina
A tendência é que no novo milênio, cada vez mais, as instituições de pesquisa procurem parcerias na iniciativa privada, para garantir a continuidade de pesquisas e do desenvolvimento de novas raças, variedades e cultivares. A Embrapa, de certa maneira pioneira nessa iniciativa, tem uma central de negócios, na sede em Brasília (DF), e os centros espalhados pelo País procuram parceiros para custear os trabalhos que já estão em andamento e os que virão.
O Centro Nacional de Pesquisa de Gado de Corte, de Campo Grande (MS), que detém hoje no País o maior número de pesquisa na área de forrageiras, também depende dessa ajuda privada, para continuar funcionando. Para isso está procurando parceiros, principalmente no setor de produção de sementes, para prosseguir pesquisas na área de desenvolvimento e lançamento de forrageiras.
Viabilizar pesquisasUm workshop realizado na primeira semana de novembro reuniu pesquisadores de quatro centros de pesquisa: a Embrapa Gado de Corte, de Campo Grande (MS); a Embrapa Pecuária Sudeste, de São Carlos (SP); a Embrapa Cerrados, de Planaltina (DF) e a Embrapa Gado de Leite, de Juiz de Fora (MG).
O objetivo foi discutir a linha de pesquisa da Embrapa e chamar os produtores de sementes para participarem como parceiros no desenvolvimento dos trabalhos, no papel de financiadores dos projetos do setor de sementes de forragens.
A Embrapa Gado de Corte reúne pesquisadores que trabalham com a prioridade de aumentar a produção e a eficiência dos sistemas produtivos, para adequar a qualidade e as características da carne e de seus subprodutos às exigências dos consumidores. Como exemplo dos resultados de seu trabalho, lançou três cultivares de gramíneas que são responsáveis por 90% do comércio de sementes de forrageiras tropicais no Brasil.
Novos mercadosNo encontro também estavam presentes representantes do Centro Internacional de Agricultura da Colômbia. O contato com os pesquisadores da instituição colombiana serviu aos produtores brasileiros de sementes como abertura para um novo mercado. Os sementeiros que participaram do workshop em Campo Grande, conta a pesquisadora da Embrapa Gado de Corte, Cacilda Valle, estão envolvidos no mercado exportador de sementes.
O Brasil, segundo a pesquisadora, é o maior exportador de sementes forrageiras do mundo tropical, ‘‘até porque em outros países existe dificuldade de produção por causa do clima e falta tecnologiaa adequada’’, completa Cacilda Valle.
De acordo com a pesquisadora da Embrapa Gado de Corte, os sementeiros ‘‘mostraram-se nitidamente interessados na parceria; eles estão se sentindo pressionados por empresas multinacionais que atuam na produção de sementes de outros produtos e poderão entrar também no mercado das forrageiras’’, revela.
Diferente de outras parcerias que a própria Embrapa Gado de Corte mantém, como venda da carne dos bovinos produzidos no centro de pesquisa, ou o teste de produtos em rebanho bovino de corte, essa parceria, explica Cacilda Valle, seria para o lançamento de novas cultivares de forrageiras, num trabalho de médio e longo prazo.
Os pesquisadores da Embrapa Gado de Corte farão agora um documento de apresentação de seus projetos que necessitam de financiamento. A Embrapa negociará com os setores da iniciativa privada interessados na pesquisa, como a Associação Brasileira de Sementes e Mudas (Abrasem) e Associação de Produtores de Sementes do Estado de São Paulo, que mantem uma Câmara Forrageira. São Paulo, aliás, ressalta Cacilda do Valle, é o Estado que tem o maior número de produtores de sementes forrageiras do País.
Importância econômicaSegundo o pesquisador da Embrapa Gado de Corte e presidente da Comissão Estadual de Sementes e Mudas do Mato Grosso do Sul, Francisco Humberto Dubbern Souza, o mercado de sementes forrageiras movimenta anualmente US$250 milhões, empatado com o mercado de sementes de milho híbrido.
As brachiárias representam 90% do comércio de sementes forrageiras no País. Em segundo estão as forrageiras do tipo panicum. ‘‘Todos são produtos que foram liberados pela Embrapa’’, afirma Cacilda Valle. De acordo com a pesquisadora, as multinacionais ainda não entraram neste mercado para valer por causa da indefinição na lei de proteção de cultivares. Existe uma pressão para incluir as forrageiras nos produtos licenciados, a fim de garantir a paternidade da produção de sementes forrageiras e conseguir royalties sobre a comercialização.
Essa paternidade hoje é dificultada pela própria condição das plantas. As forrageiras são apomídicas ou assexuadas. Ou seja, além de serem perenes, depois de plantadas são fáceis de serem perdidas para o domínio público, pois mantêm características genéticas nas sementes. Quando se planta um campo de sementes ele se replica igual a planta-mãe e não é preciso recorrer novamente ao produtor de sementes. ‘‘A forrageira mantém identidade e não segrega como acontece com o milho, não perde as características iniciais. Não é preciso plantar todo ano e só se renova depois de muito tempo’’, conta Cacilda Valle.
Novos materiaisA Embrapa Gado de Corte está com materiais novos de brachiárias para serem lançados. A pesquisa entra agora na fase de avaliação do material em pastejo animal. Neste projeto ainda não terá a ajuda de parceiros para o custeio.
Os projetos que virão depois, garante a pesquisadora, terão que ter apoio financeiro dos parceiros. ‘‘A próxima pesquisa deverá avaliar os primeiros híbridos de brachiárias. Neste projeto será necessária a parceria da iniciativa privada’’, afirma a pesquisadora.
A expectativa da Embrapa é lançar em 2002 quatro cultivares de brachiária como alternativa à cultivar marandu, com adaptação para solos de média fertilidade. Mesmo assim, a pesquisadora alerta: o pecuarista não deve esperar por cultivares milagrosas para resolver o problema de degradação que aconteceu ao longo dos anos devido à falta de cuidados com as pastagens. ‘‘O pecuarista deve olhar a pastagem como um cultivo que precisa de algum tipo de cuidado e de recuperação.’’
Os materiais que serão lançados em 2002, quatro no total, são de brachiária brizantha e foram selecionadas na Embrapa Gado de Corte e na Embrapa Cerrados. A brachiária marandu foi desenvolvida pela Embrapa em 1984 e está espalhada nas pastagens do Brasil, muitas destas áreas hoje em degradação.

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