Vinte produtores de novilho precoce de Campo Grande (MS), que fazem parte do Procarne (Associação de Produtores de Carne de Qualidade do Mato Grosso do Sul) se uniram a outros dois elos da cadeia produtiva: frigorífico e varejo. O objetivo do projeto é agregar mais valor ao produto e ao trabalho de cada um, conseguindo lucratividade maior para cada setor, da produção até a venda ao consumidor.
Para o consumidor, garantem os participantes do programa, haverá a vantagem de pagar por uma carne ‘‘de qualidade’’, embalada, com informações sobre todo o processo necessário para resultar naquele bife que estará em sua mesa.
Sistemas de qualidadeA ponta do programa começa nas propriedades, com a criação de animais em diversos sistemas de produção (confinados, semiconfinados, a pasto e outros), para abate até aos 36 meses de idade.
Todo o manejo dos animais é feito para garantir produção de carne de qualidade. Os machos são abatidos com peso mínimo de 15 arrobas e as fêmeas no mínimo com 12 arrobas. Com a venda de uma carne diferenciada, os produtores esperam agregar de 3% a 5% no rendimento da produção.
A associação dos produtores, que funciona há pouco mais de dois anos, já operou um tipo de parceria com uma rede de supermercados de Campo Grande que não deu certo. ‘‘Não havia entendimento, porque os pecuaristas não estavam contentes com o diferencial que o supermercado se propôs a pagar pela carne’’, explica o presidente da Procarne, Carlos Eduardo Dupas.
A negociação com grandes empresas, como as redes de supermercados, não é muito fácil para o pecuarista. Muitas vezes as redes começam, pagando um diferencial para atrair o produtor e depois misturam o produto diferenciado ao convencional e igualam os preços pagos ao fornecedor. A parceria com empresas menores, como o caso do Procarne, segundo Dupas, pode trazer resultados mais positivos para os pecuaristas.
Ampliar mercadoDiscutir com empresas menores, segundo Dupas, possibilita fazer ajustes de margens de lucratividade, custos de produção, entre outros itens.
Segundo Dupas, a capacidade inicial do programa é atender o abate de 30 mil animais por ano e vender de 350 a 400 novilhos precoces por mês. O resto poderá ser destinado para os outros mercados, especialmente São Paulo. A idéia é ampliar o fornecimento para 1.500 cabeças de novilhas precoces por mês, ‘‘tudo vai depender da demanda.’’
Maior diferencialCom a nova parceria, segundo Dupas, o objetivo é conseguir um diferencial de R$0,50 no preço da arroba dos animais, especialmente para as fêmeas. Ou seja, entre 3% e 5% a mais.
‘‘Como é difícil de remunerar melhor o macho e aumentar os preços atuais, preferimos lutar para conseguir um preço melhor pela fêmea, que quando criada nas mesmas condições que o macho apresenta uma carne de igual qualidade’’, garante Dupas.
De acordo com o presidente da Procarne, no Brasil alguns pecuaristas costumam usar as fêmeas por mais tempo nas propriedades e quando os animais vão para o abate, mais velhos, não obtêm a cotação desejada. A falta de classificação dos tipos dos animais no abate, com rendimento de carcaça e qualidade da carne, entre outros itens, também são uma barreira para remunerar melhor o pecuarista.
O diferencial de preço da fêmea e do macho, basicamente, pode depender apenas da idade entre os dois no momento do abate. A idade de abate é um dos fatores que determinam a maciez da carne.
No futuro a expectativa dos pecuaristas é obter diferencial de R$1,00 na cotação e, mais tarde, equiparar as duas cotações, recebendo o mesmo pela arroba de machos e fêmeas. Hoje essa diferença pode chegar a 10%.
No Mato Grosso do Sul, por exemplo, a arroba do macho, para pagamento à vista, vale R$38 a R$38,50; e arroba da fêmea entre R$35 e R$35,50. Só com a equiparação desses preços na arroba o pecuarista poderia ganhar até 10% a mais no preço da arroba.
Produção em escalaA venda da carne ‘‘diferenciada’’, de início, deverá atender apenas os consumidores de Campo Grande e região, através da loja ‘‘O Ponto da Carne’’, outro dos parceiros do Procarne. A loja é tradicional em Campo Grande e até entrar na parceria com os pecuaristas do Procarne vendia sua própria produção de bois.
O dono da loja, Carlos Coutinho, produzia e abatia seus animais e fazia a venda convencional ou em embalagens etiquetadas, já com a rastreabilidade da produção, uma exigência do mercado internacional.
Agora, com a parceria, a vantagem do empresário será ter uma oferta equilibrada, em escala garantida de animais no mesmo padrão. ‘‘A carne desses animais precoces tem um aproveitamento quase total. Vendida em cortes especiais, atrai os consumidores também pela praticidade. O mercado consumidor aponta para essa tendência.’’
Segundo Coutinho, hoje, o maior movimento na loja ainda é de venda de carne no gancho, ou convencional, mas ele acredita que no futuro a demanda será maior pela carne embalada. Com a parceria, Coutinho calcula que a sua lucratividade também deverá ficar por volta dos 3% a 5% se comparado ao comércio convencional de carne.
Animais classificadosPara atingir padrão de qualidade desejada e garantia de consumo, no meio dos elos da cadeia produtiva, entre a produção e a venda da carne, o abate e a desossa do produto são outros pontos essenciais no processo.
O empresário Walter Adames, da Adames Alimentos, é o responsável pelo abate (terceirizado) dos animais e tem a empresa de desossa e embalagem da carne. Para garantir um padrão, ele explica que os animais são classificados no momento do abate, quando são considerados três pontos principais: idade como forma de assegurar a precocidade e, consequentemente, a maciez da carne; a conformação de carcaça e a cobertura de gordura da carne, que deve estar sempre no ponto ideal, ou seja, sem excesso.
A Adames Alimentos já fazia esse trabalho de abate e desossa para outros pecuaristas. Segundo Walter, atualmente, além de abastecer a região, a empresa está fornecendo duas carretas diárias de carne dessossada para Florianópolis (SC). Só que essa carne não é oriunda do projeto Procarne. No entanto, esses compradores, que hoje estão levando carne comum, já demonstraram interesse em comprar também a carne do programa, garante Walter Adames.
Dentro das normasAlém da fiscalização do Serviço de Inspeção Federal (SIF), do Ministério da Agricultura, a Adames Alimentos, mantém um veterinário responsável pelo controle de qualidade do produto. Ana Cristina Lima, a veterinária responsável, garante que a empresa implantou um moderno sistema de higienização da sala de abate, os equipamentos e ferramentas usadas para a desossa e a embalagem da carne.
Hoje são desossados em média 150 animais por dia: 70% de animais comuns e 30% de precoces. Mas, a capacidade total é para 300 cabeças/dia, meta que Walter espera alcançar gradualmente a partir do aumento das demandas interna e externa pelo produto diferenciado que os pecuaristas estão oferecendo.

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