Paranaenses rumam para o Nordeste
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sexta-feira, 10 de julho de 1998
Paulo Pegoraro 
Sob o ardente sol do Nordeste brasileiro há terras férteis e águas fartas que fazem vicejar frutos, e o potencial de produção vai sendo largamente ampliado, com a introdução de modernas tecnologias. Produtores rurais do Sul do País, inclusive do Paraná, estão avançando cada vez em maior número para aquelas terras, e acham que elas têm até vantagens em relação às que ocupavam em suas regiões de origem.
O empresário Caetano Bernardini, que atua no Paraná e no Nordeste (principalmente na Bahia), em projetos agropecuários, dono de 500 hectares em Correntina, no Oeste da Bahia, faz parcerias para os projetos. Ele observa que o sol incandescente (e a pobreza das chuvas) do semi-árido pode flagelar o nordestino desqualificado para as modernas práticas agrícolas, mas é ao mesmo tempo um dos elementos fundamentais para fazer daquela uma região nobre. No Vale do Rio São Francisco, na Bahia, há mais de 3 mil horas/luz ao ano, aquecendo a função vegetativa das plantas.
Manoel FrançaTecnologiaCafé irrigado em CorrentinaCondiçõesPara comparação, na Califórnia (EUA), um dos celeiros mundiais, são menos de 2,2 mil horas/luz/ano. À luminosidade nordestina juntam-se águas subterrâneas, mas também de superfície, como na faixa do São Francisco, e o clima estável. Portanto, condições adequadíssimas para produzir o ano todo, mesmo no semi-árido, comenta o empresário, estabelecendo uma diferença básica com o Sul - o clima de grandes variações.
Caetano Bernardini e outros 125 produtores do Sul, principalmente do Paraná, estão conferindo estas situações. Eles integram a Cooperativa Agropecuária Nova Itália (Coanil), constituída este ano e com sede em Correntina, em uma região que, se não pode ser comparada ao semi-árido, quanto à falta de chuvas, tem histórico semelhante quanto ao aproveitamento das terras: há uma década foi palco de projetos que acabaram sendo simples escoadouros de recursos.
Exatamente este aspecto motivou Bernardini a despachar carta para várias frentes, que detém o poder ou sobre ele influenciam - do Ministério da Reforma Agrária e Política Fundiária à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Conhecedor da realidade nordestina, Bernardini escreveu que a seca existe e é fenômeno meteorológico inevitável, porém estão diante de nossos olhos soluções práticas a implementar.
O empresário cita a existência, na chamada região das secas, de manancial, terras férteis, alta e constante luminosidade, mão-de-obra abundante, estradas, estrutura de distribuição e terras improdutivas estrategicamente localizadas.
Reforma e integraçãoA mescla de agricultores do Sul, como os da Coanil, com tecnologia e experiência na diversificação de culturas e características de empreendedores, associada às condições naturais do Nordeste e sua gente, pode levar ao pleno aproveitamento do potencial das terras. E a criação de pequenas cooperativas é o caminho indicado por Caetano Bernardini, porque através delas ocorre a transferência de tecnologias.
Com isso, a própria reforma agrária pode avançar, porém Bernardini alerta: experiências bem sucedidas em vários países mostram que o processo da reforma não deve ser restrito a governos, mas integrar a iniciativa privada, para sua descentralização, com recursos para projetos bem definidos, e não direcionados apenas a açudes.
FruticulturaO Projeto Formoso, com desdobramentos a partir do município de Bom Jesus da Lapa, no Oeste baiano e Vale do São Francisco, desenvolvido basicamente por produtores sulistas, com técnicas avançadas de produção, é exemplo do potencial das terras nordestinas que pode ser estendido ao próprio semi-árido. Com a diversificação de culturas introduzidas, do Formoso sai banana para exportação.
São exportadas também a polpa da pinha, manga e outras frutas. A fruticultura é mesmo uma das grandes alternativas, e a uva é outro grande exemplo. Nas regiões de Juazeiro (BA) e Petrolina (PE), no semi-árido, banhadas pelo Rio São Francisco, colhem-se duas safras e meia por ano. A uva é uma das fontes de receita mais valiosas para os produtores. Em área de 2 hectares irrigados, eles conseguem lucro líquido anual de até R$120 mil.
Comparativamente, no Sul, nos mesmos dois hectares de soja, cultura preferencial, é quase impossível o produtor sobreviver, pois colhe em média 80 sacas, das quais 48 destinadas ao custo de produção, sobrando apenas 32 sacas. Em Cascavel, no Oeste do Paraná, uma saca de soja vale R$12,60, o que significa que, com uma safra anual como ocorre com a cultura, o sojicultor obterá ao final do ano em torno de R$400,00.
IrrigaçãoOutro exemplo é o do café, do qual o Oeste baiano torna-se pólo de produção, com elevadíssima produtividade, chegando a 75 sacas por hectare. O segredo do café, assim como da fruticultura e outras lavouras, está no aproveitamento de todos os elementos da natureza e, no caso da água, quando ela não vem da chuva, coletando-a dos mananciais subterrâneos ou de superfície para o componente básico: irrigação.
Estimativas de produtores sulistas indicam que, em média, o custo para implantar a irrigação é de R$7 mil por hectare. Pode parecer elevado, mas ao terceiro ano de produção o investimento está pago. No Oeste da Bahia também as culturas tradicionais do Sul têm grande desempenho: a soja chega à média de 50 sacas por hectare e o milho atinge 130 sacas/ha. O agricultor Luiz Bergamaschi, oriundo de Xanxerê (SC), é um campeão de produtividade. Ele
chegou a 142 sacas por hectare, nas terras que adquiriu em Correntina. Bergamaschi e Nelsi Pelizaro, de Toledo, no Oeste do Paraná, enfrentavam dificuldades em suas regiões de origem, e não pensam mais em retornar, a não ser para passeios. Situação igual é a de Silvério Frohlinch, que saiu em 97 de Santa Helena, também no Oeste paranaense, para instalar-se em Correntina e virar presidente da Coanil.
Cada associado da cooperativa adquiriu cerca de 500 hectares, a custo médio de R$150,00 o hectare, valor assemelhado ao da região do semi-árido. Segundo Frohlinch, eles não têm do que reclamar na opção que fizeram pelas terras nordestinas. O solo, que requer inicialmente correção da acidez, tem de 18 a 28% de argila, por isso não compacta facilmente, e o relevo é plano, e por isso inclusive dispensa murunduns.
EntusiasmoAs chuvas começam em outubro e seguem regularmente até abril, e como o solo é arenoso (o que facilita a gradeação), o plantio é feito sem problemas logo após as águas. Silvério Frohlinch ainda está na fase de ocupação das terras que adquiriu, destinando inicialmente cerca de 100 hectares à soja e arroz. Ele diz que em algumas áreas a gente fica entusiasmado com o que vê, e cita o caso de produtores oriundos de Campo Mourão (Centro-Oeste do Paraná).
No conjunto, esses produtores vão além da média, conseguindo cerca de 65 sacas de soja por hectare sem muito sacrifício, e os que utilizam variedades melhor desenvolvidas chegam a 85 sacas. Silvério Frohlinch também observa que, na região onde está, as águas são fantásticas para projetos de piscicultura, estimulados pelo Ministério da Agricultura e secretaria estadual da Bahia, e nos quais a Coanil também deve se empenhar.
Para Caetano Bernardini, que colhe mais de 50 sacas de soja por hectare; a presença dos produtores do Sul do Brasil é fundamental, para o aproveitamento das terras nordestinas, porque eles detém tecnologias e em seus projetos tradicionalmente se cercam de técnicos para a orientação. Além disto, para projetos bem elaborados há linhas de crédito, especiais para culturas como de frutas e do café, e linhas semelhantes às do restante do País para outras culturas.
No semi-árido, onde a falta de chuva acaba sendo aspecto positivo, pois permite melhor controle da umidade, a grande alternativa é mesmo a fruticultura irrigada, cada vez mais estimulada pelos órgãos oficiais, por causa do grande mercado externo ainda não explorado. O Brasil, com suas vastas terras produtivas, exportou em 97 apenas R$100 milhões em frutas, o que é irrisório, comparando-se por exemplo com o Chile, que no mesmo ano exportou R$2 bilhões, portanto vinte vezes mais.


