Paraná vai produzir leite artificial de coelhas inédito
Estudo da UEM entra na fase final, com criação da formulação e posteriores testes
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 09 de fevereiro de 2026
Estudo da UEM entra na fase final, com criação da formulação e posteriores testes
Lucas Catanho - Especial para a FOLHA 

Pesquisadores do Departamento de Zootecnia da UEM (Universidade Estadual de Maringá) trabalham na fabricação experimental de um leite artificial a partir da ordenha de coelhas, produto que seria inédito no país.
As pesquisas tiveram início há dois anos. Com o protocolo de ordenha estabelecido, os pesquisadores entraram na fase final do estudo: formular o leite artificial de coelha e fazer os testes de aceitação entre os láparos (filhotes de coelhos).
A expectativa é que a suplementação reduza a mortalidade dos filhotes e aumente a eficiência produtiva da cadeia.
Leandro Castilha, coordenador da cunicultura da UEM, explica que o leite de coelha é um produto essencial para reduzir a mortalidade de láparos.
“Também trará esperança de maior lucro ao produtor e maior bem-estar aos animais, que estarão mais bem alimentados, absolutamente nutridos. Queremos ver todos os animais nascidos desmamados, saudáveis e comercializáveis, gerando ativos de um agronegócio importante”, afirma.
Europa, Estados Unidos e alguns países asiáticos já possuem substitutos comerciais, mas ainda não há formulação disponível no Brasil. A UEM pode, portanto, abrir o caminho para a primeira produção nacional, inclusive com possibilidade de patente.
CUNICULTURA
A cunicultura (criação de coelhos) é reconhecida por ser socialmente justa, economicamente viável e ambientalmente correta.
A carne é rica em proteínas, contém baixos teores de colesterol e gera diversos subprodutos, como pele, patas, vísceras, esterco e até animais destinados a pet shops.
Além da versatilidade, a espécie apresenta elevada capacidade reprodutiva. Uma coelha produz, em média, de 10 a 12 filhotes por ninhada, com gestação de cerca de 30 dias. Esse ritmo pode resultar em até 50 animais desmamados em um ano.
Mas esse potencial não se converte integralmente em produtividade, já que a taxa de mortalidade no período de desmame, entre 30 e 40 dias de vida, chega a cerca de 20%.
PERDAS
Na Fazenda Experimental de Iguatemi, onde a UEM mantém um rebanho de cerca de 600 coelhos, incluindo 100 fêmeas matrizes e 50 machos, as perdas chamaram a atenção dos pesquisadores.
Uma das causas identificadas pode estar na subnutrição dos filhotes, especialmente em ninhadas numerosas.
“Hoje temos ninhadas com 12, 14, 16 filhotes, mas as fêmeas possuem apenas oito tetas. Existe uma limitação física que impede o fornecimento adequado de leite. A solução pode estar em uma fórmula artificial, como já existe para outras espécies”, explica Castilha.
PROTOCOLO
Para desenvolver uma fórmula adequada, era preciso primeiro obter quantidades suficientes de leite natural para análise, tarefa que se mostrou o maior obstáculo da pesquisa.
O leite da coelha só é liberado mediante estímulo direto do filhote, que ativa a descida por meio de temperatura, sucção e movimentos da língua.
O professor do Departamento de Zootecnia e autor do protocolo de ordenha de coelha, Silvio Leite, relata que “sem o filhote, o leite simplesmente não sai”.
“Precisamos entender profundamente esse processo para conseguir não apenas a primeira gota, mas volumes capazes de atender às análises laboratoriais.”
O grupo desenvolveu um protocolo próprio, combinando indução hormonal, estímulo natural do filhote e acoplamento de um equipamento de sucção após a liberação do leite.
POTENCIAL
Segundo dados do Deral (Departamento de Economia Rural), 29 municípios paranaenses registraram criação de coelhos para corte em 2024. Foz do Iguaçu é o maior destaque, com 55 toneladas abatidas nesse ano.
Esse volume resultou em um VBP (Valor Bruto de Produção) de R$ 1,5 milhão, com participação de 83% na criação de coelhos para corte em nível estadual.
Segundo o IBGE, o Paraná possui o terceiro maior plantel de coelhos do país, com cerca de 33 mil animais.
PESQUISA
Além da produção alimentar, a espécie desempenha papel fundamental na pesquisa biomédica. Coelhos fornecidos pela UEM são utilizados para o desenvolvimento de soros antiofídicos, vacinas veterinárias e estudos de ventilação pulmonar, transporte de córneas e outras aplicações farmacológicas e médicas.
A possibilidade de um sucedâneo (substituto) nacional pode fortalecer ainda mais essa cadeia. Com filhotes mais nutridos, saudáveis e sobreviventes, aumenta-se não apenas a produção de carne e subprodutos, mas também a disponibilidade de animais para fins científicos e sanitários.


