Josoe de CarvalhoDesde o princípio, o café do Paraná é cantado em prosa e versos aos quatro ventos como um produto de ‘‘baixa qualidade’’; o Estado tem o melhor solo, ‘‘com fertilidade invejável’’, mas carece de clima e de cuidados, fatores que levam a patamares superiores de valorização os cafés produzidos em São Paulo e Minas Gerais, pois lá o café é de boa qualidade, com a complacência da Natureza.
Quem está na cultura há bastante tempo, sabe perfeitamente que, ressalvados alguns detalhes, o café na árvore é de igual qualidade, indiferente à região, e até mesmo ao país onde está sendo produzido.
Portanto, o café após colhido, somente tem a perder qualidade, o que deveremos evitar com cuidados especiais e utilização de métodos modernos de colheita, e processamento do produto, através de tecnologias atualizadas, até o armazenamento, o que vai proporcionar a conservação do estado inicial de qualidade do momento em que o fruto foi colhido.
Pensando da colheita para a frente, a utilização do ‘‘pano de colheita’’ é imprescindível, pois com ele estaremos evitando o contato, do café colhido, com a terra, além de impedir a mistura com cafés já fermentados e existentes ao redor da árvore.
A abanação, o ensaque e o transporte do produto colhido no dia, devem ser efetuados no mesmo dia, assim como a lavagem e a separação, que deverão ser feitas em lavadores-separadores ‘‘maravilha’’, mais antigos e com alto consumo de água (usa 10 litros de água para lavar um litro de café) ou em lavadores-separadores mecânicos, com alta eficiência e baixo consumo de água (usa um litro de água para lavar 10 litros de café).
Com a execução da atividade acima, teremos no terreiro o café ‘‘bóia’’, que é um produto de baixa qualidade, pois já vem fermentado da lavoura; e juntos, o café cereja (vermelho) mais o café verde, até então de boa qualidade, todos livres de terra, folhas, ciscos e eventualmente pedras, que foram retiradas pelo lavador-separador mecânico.
De 1989 para cá foi lançado no mercado o ‘‘descascador de cerejas’’, que veio revolucionar o sistema de manejo utilizado até então no Paraná, com destaque para a microrregião de Cornélio Procópio, onde se concentrou o maior volume de propriedades com adoção imediata da nova tecnologia, que passaram a produzir cafés com qualidade nunca antes obtida e com uma queda nos custos de produção, e muito semelhantes aos cafés dos Estados de Minas e São Paulo, e algumas dessas propriedades, comercializando seu produto com empresas daqueles Estados, que repassam o produto como de produção própria, a preços superiores, aproveitando-se assim da fama destas regiões produtoras.
O ‘‘descascador de cerejas’’ é uma máquina de manejo simples, que recebe os cafés cereja e o verde, que foram separados do café ‘‘bóia’’ no lavador-separador mecânico, e além de fazer a‘‘separação de 100% do café verde’’, promove o ‘‘descasque do café cereja’’, que é separado da casca no mesmo instante, antes de entrar no terreiro.
A partir daí teremos o ‘‘café verde’’ a ser seco em separado, com cuidados especiais para evitarmos o aparecimento de café preto (defeitos); a casca do café cereja é retirada antes de ir para o terreiro, o que nos dá uma economia de 40% no volume de terreiro, secadores e tulhas.
O café ‘‘cereja descascado’’ é levado para uma outra máquina, também com desenvolvimento moderno, chamada de ‘‘desmucilador’’, por onde o café cereja descascado passa e perde toda a mucilagem (goma), propiciando assim uma maior segurança durante o seu processo de secagem, mantendo a qualidade inicial, pois os riscos de ocorrência de fermentação são quase nulos.
Após todo este processo teremos, no terreiro ou no secador: a) - o café bóia, de baixa qualidade; b - o café verde, de média qualidade; c - o café cereja descascado, de alta qualidiade.
Com relação à seca em secadores, destacamos como os mais modernos e indicados os ‘‘secadores rotativos horizontais’’, equipados com fornos de fogo indireto, pois assim teremos o produto final, preservado de efeitos mecânicos de elevadores e roscas transportadoras inconvenientes, além de evitarmos que o produto adquira cheiro de fumaça, e impedirmos a ocorrência de incêndio provocado na carga do secador por fagulhas vindas da fornalha.
À primeira vista, parece ser um processo complicado e dispendioso, mas não é, pois existem no mercado máquinas com capacidade para atender as necessidades dos diferentes módulos de cafeicultores.
Nos dias atuais, além do preço do café estar remunerando melhor aqueles que já estão fazendo uso das novas tecnologias, parece que o Governo Federal finalmente despertou para a importância econômica e social que a agricultura em geral e a cafeicultura em especial representam para o País, e já encontramos alguns incentivos de investimentos nos bancos oficiais (Finame e Proger), que proporcionarão aquisição das máquinas acima referidas.
Finalizando, afirmamos com total segurança que a cafeicultura paranaense somente será economicamente viável e representativa no contexto nacional e internacional, se as técnicas modernas de condução das safras forem difundidas e adotadas pelo maior número possível de cafeicultores, proporcionando assim a obtenção de grandes volumes de café com qualidade para exportação.
O autor é engenheiro agrônomo em Cornélio Procópio.

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