O Paraná possui condições de produzir café cereja descascado de qualidade, cujas características são bem aceitas no mercado externo e garantem melhores preços. Quase um ano após as últimas geadas que atingiram cafezais de algumas regiões do Estado, é hora dos cafeicultores retomarem a produção, para se tornarem competitivos. A opinião é do engenheiro agrônomo Francisco Barbosa Lima, coordenador regional do Departamento do Café do Ministério da Agricultura e Abastecimento em Londrina.
Para ele, a boa aceitação do produto paranaense pelos consumidores internacionais depende do empenho dos produtores, que deveriam ser mais ativos na divulgação de suas safras. A participação em eventos, feiras internacionais e prêmios de qualidade é um dos caminhos para obter esse reconhecimento.
Segundo o especialista, a geada do ano passado desestimulou o setor, que produzirá apenas 25% do volume esperado. Apesar dessa conjuntura, a realização de eventos como o 9º Encontro Estadual do Café, que aconteceu em abril durante a 41ª Exposição Agropecuária e Industrial de Londrina e do seminário ‘‘Qualidade do café descascado: cuidados na secagem e no armazenamento do produto’’, promovido pela Universidade Illy de Café em Londrina na última quarta-feira, evidenciam o interesse dos produtores pela qualificação.
CompetitividadeSegundo Barbosa, a produção do café cereja descascado é a melhor opção para enfrentar as condições climáticas adversas para a cultura no Estado, evidenciadas pelo excesso de chuva e risco de geadas.
O sistema, que consiste na retirada da casca ou da polpa dos grãos antes da secagem, permite evitar o excesso de umidade. ‘‘É interessante para médios e grandes produtores, pois demanda equipamentos como lavador, descascador e secador’’.
A adesão ao plantio adensado, que exige modificações no processo de colheita, também melhora as características da produção. ‘‘O café é colhido no pano e não cai no chão, melhorando o produto final’’, ressaltou.
Além de seguir todas as recomendações técnicas para obter o café de qualidade, os produtores precisam mudar a imagem do produto paranaense. ‘‘Apenas a qualificação não é suficiente, é necessário investir na divulgação’’, analisou. Outra condição importante para a retomada da produção é o incentivo do poder público, através do oferecimento de linhas de financiamento.
ReconhecimentoEle acredita que o interesse da Illy em estimular os paranaenses a participarem do Prêmio Qualidade de Café, promovido pela instituição, confirma a existência, no Estado, de condições para oferecer café com características adequadas ao mercado externo.
Outra medida que pode ajudar no reconhecimento é o programa Café do Brasil, que vai certificar a origem e a qualidade da produção brasileira. No Paraná, a proposta é identificar os padrões Terra Roxa e Iguaçu, com características diferenciadas inerentes às condições climáticas onde são produzidos. ‘‘O Terra Roxa é aromático, com acidez moderada e encorpado. O Iguaçu é de aroma e corpo mais leves e acidez mais baixa’’, explicou.
MedidasA bióloga Ana Regina Teixeira, consultora técnica da empresa Assicafé, de São Paulo, esteve em Londrina na última quarta-feira para proferir um seminário sobre cuidados na secagem e armazenamento do café descascado.
Ela também acredita que o cafeicultor paranaense pode ser competitivo, desde que opte pela produção do café descascado, atentando para todos os detalhes necessários para garantir grãos de qualidade. Segundo ela, o maior problema da produção paranaense é a umidade, que pode ser combatida através da opção pelo descascamento e a atenção para os cuidados durante a secagem e a armazenagem.
Ela orienta fazer a secagem do café em camadas finas. O local onde os grãos serão armazenados precisam ser livres de umidade e pouco iluminados, para evitar o mofo. Nesse ambiente, a temperatura média recomendada é de 20 graus. ‘‘Café gosta de sombra e água fresca’’, brincou.
Outra dica é não encostar as sacas na parede ou cobrí-las com lona. Além disso, a umidade também pode ser evitada pela impermeabilização do chão. Para evitar a contaminação por cheiros estranhos, o café não deve ser guardado junto com outros produtos. A sacaria precisa ser de boa procedência, para não transmitir gosto indesejado aos grãos.
‘‘Armazenar corretamente significa manter as características originais do café por um período determinado’’, afirmou Ana Regina. A qualidade é evidenciada pela isenção de defeitos, pelas peneiras médias ou graúdas, pela cor seca e pelo aspecto homogêneo.
A bebida resultante deve ser fina e com características adequadas de acidez, amargor, doçura, corpo e aroma. ‘‘Precisa provocar sensações agradáveis em quem toma’’, disse. Segundo ela, o produtor que conseguir essas qualidades vai vender seu produto a um preço 20% maior que o praticado pelo mercado. ‘‘O investimento compensa’’.

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