Para onde vai o algodão paranense? Essa é uma pergunta que técnicos e produtores não conseguem mais responder. O desânimo com a cultura aumentou na safra passada (97/98), quando o plantio foi estimulado, o produtor correspondeu e acabou no prejuízo.
Más condições climáticas, com estiagem em janeiro e excesso de chuva em março/abril, no pico da colheita, afetaram a qualidade. Depois o preço para o produtor não compensou. Em consequência deve reduzir-se a área de plantio na safra 98/99. ‘‘O algodão foi afetado não só em produtividade mas também em qualidade’’, afirma a agrônoma do Departamento de Economia Rural (Deral, órgão da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento do Estado), Vera Zardo.
Sem qualidade, sem preço No início da comercialização da safra o preço ficou abaixo do mínimo (R$7,00 a arroba), e o algodão, tipo 6,6 até 6,8, foi vendido a R$6,30/6,40 a arroba, por um produto. Teve produtor que colheu tipo 7, reduzindo ainda mais a lucratividade. A pressão de lideranças agrícolas fez com que o Governo entrasse no mercado, comprando algodão para garantir, pelo menos, o escoamento da produção.
‘‘Foi uma safra (97/98) em que o produtor não teve rentabilidade. O Governo teve que fazer leilão para garantir o escoamento. A produtividade esperada entre 1.900 quilos por hectare e 2 mil kg/ha, caiu para 1.500 kg/ha’’, explica a agrônoma do Deral.
Pela metadeO primeiro levantamento do Deral sobre intenção de plantio, segundo Vera, já indica uma redução de 43% na área de algodão da safra 98/99. O trabalho foi realizado com agricultores de todo o Estado, em julho, quando eles já deveriam ter decidido quanto iriam plantar.
Quem vai plantar o algodão em outubro, garante o agrônomo do escritório da Emater-PR em Londrina, Rafael Figueiredo, deveria ter preparado o solo, comprado sementes e calcareado a terra, ‘‘três dos itens fundamentais para conseguir boa produtividade na lavoura.’’
A previsão de cultivo para a safra 98/99 é de 66.100 ha, contra uma área de 116.100 ha na safra passada (97/98). Com isso o Estado, que já teve 50% da área de cultivo do País e foi o maior produtor nacional (hoje representa 13%), volta a ter uma de suas menores áreas. A menor área de algodão no Paraná foi plantada em 96/97 - 59.700 ha.
Importação e potencialSegundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), na safra 97/98 o Paraná produziu 64,5 mil t de algodão em pluma, numa área de 116,6 mil ha, ficando como quarto produtor nacional. Mato Grosso ficou em primeiro lugar, ao cultivar 113,2 mil ha, nos quais produziu 97 mil t. Em seguida ficou Goiás, com 86,6 mil t de pluma, em área de 180,6 ha. São Paulo ficou como terceiro produtor, com 67 mil t, em área de 121,7 mil ha.
A produção nacional, na safra 97/98, chegou a totalizar 414,4 mil t de algodão em pluma, numa área de 880 mil ha. Mas a demanda para consumo no País, nesta mesma safra, chegou a 730 mil t de pluma, sendo necessária a importação de 400 mil t. Mesmo com potencial para produzir e atender sua demanda, o Brasil tem importado. ‘‘O Paraná, por exemplo, já teve 50% da área nacional e hoje representa apenas 13%.’’
DerrocadaDe acordo com a agrônoma do Deral, de 1992 para cá a cultura vem enfrentando seus piores momentos, com a abertura de mercado e a entrada de produto importado com prazo de pagamento melhor do que o nacional. ‘‘O algodão é cultura de pequeno produtor que está descapitalizado e não tem acesso a crédito; nesse meio tempo houve também encarecimento da mão-de-obra usada na lavoura. Hoje quem fica no algodão é quem tem produção de qualidade melhor, geralmente produtores ligados a cooperativas, e que não são muitos.’’
Em 91/92 o Paraná chegou a cultivar 700 mil ha, um exagero na visão de muitos técnicos. Esse fato colaborou para a derrocada da cultura no Estado. O estímulo ao plantio, naquela época, fizera com que muitos produtores de soja e milho, sem tradição no algodão, migrassem para a fibra.
Num momento de crise o produtor tradicional acabou saindo da cultura; os que plantavam outras culturas voltaram para o milho e a soja. ‘‘Eles não eram tradicionalmente produtores de algodão, mas tinham escolhido a cultura como alternativa de preço bom’’, explica Figueiredo. Segundo ele, uma área normal de algodão no Estado seria de 300/350 mil ha.
TransferênciaPara a safra 98/99, que já deveria estar em pleno andamento, o que se vê, no campo, é um marasmo total. O estímulo para o plantio, que saiu na safra passada, ao que tudo indica, não deverá ocorrer neste ano, até porque já é tarde para o repasse de recursos. Isto deveria ter ocorrido em julho.
Os problemas da cultura têm aumentado nos últimos anos, desestruturando a produção no Estado. Enquanto isso, outros Estados como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás, estão se organizando no cultivo e conseguindo boa produtividade no algodão. A cultura está se transferindo para a região Centro-Oeste do Brasil. Nessa região produtores estão tendo acesso ao crédito e a cultura está estimulada. Situação bem diferente do Paraná.
No Paraná muitas máquinas algodoeiras foram fechadas ou se deslocaram para outras regiões produtoras. Há também dificuldades nos bancos financiadores, para aprovar crédito rural destinado ao algodão, já que muitos agricultores estão inadimplentes em função da própria cultura.Arquivo FolhaReduçãoNa safra 97/98 o Paraná produziu 64,5 mil toneladas de algodão em pluma. Este ano a produção deverá ser menor
Cláudia Barberato

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