Marcos Zanatta
De Maringá
O algodão, que chegou a ocupar 700 mil hectares da área agrícola do Paraná, no início da década de 90, não tem passado de 50 mil hectares nos últimos anos. Na atual safra, apesar da estiagem no período recomendado de plantio, deve ocupar 60 mil hectares. A área é maior do que em outros anos porque boa parte dos produtores decidiu apostar novamente na cultura. Primeiro pelo preço da soja e segundo pela cotação favorável do algodão. A situação obrigou as indústrias a se tornarem independentes da matéria-prima local.
Hoje, calcula o diretor da Cooperfios, de Maringá, Claudomiro Siroti, as indústrias locais compram 70% da fibra fora do Paraná. ‘‘A facilidade de importação e algumas mudanças de comportamento de produtores e de governos ajudaram a acabar com a cultura no Paranᒒ, lembra ele. A situação contrasta com o trabalho realizado por lideranças políticas e empresariais da região. A idéia era fechar o ciclo, atraindo empresas de todo o segmento, que iriam se somar às indústrias de confecções que se multiplicavam.
Chega fábrica, sai matéria-primaMas, a situação inverteu. Apesar das muitas empresas de beneficiamento, fiação, tecelagem e algumas de tinturaria se instalarem nos municípios onde o algodão ocupava grandes áreas, a cultura foi sumindo. ‘‘Hoje o ciclo fechou mas a ponta principal, que é o da matéria-prima, acabou’’, lamenta Siroti. Além da falta de preços e do alto custo da cultura, a ‘‘fuga’’ do algodão para outros Estados teve incentivos. Como o Mato Grosso, que criou um programa para atrair produtores interessados no algodão.
Siroti lembra que no Mato Grosso 75% do ICMS da cultura voltam para o produtor, em forma de incentivos. Como a cultura é nova, qualquer percentual é lucro para os cofres públicos. Outro fator que atrai os cotonicultores é a topografia do Estado, com grandes áreas planas, que permitem a mecanização. Com todos os fatores positivos, Mato Grosso conseguiu levar 50% da produção nacional. O mesmo percentual antigo do Paraná, que hoje não chega a 10%. ‘‘Hoje, no Brasil, não existe nada igual ao Mato Grosso para o algodão’’, confessa Siroti.
Ele lembra que a cultura está entre as que mais geram empregos no campo. ‘‘Um hectare de algodão gera um emprego’’, compara. O pior, no entanto, lembra Siroti, é que a área de onde sai o algodão não deixa substituto. ‘‘Antes a região de arenito tinha três atividades sociais. Além do algodão, a mandioca e a cana sustentavam a mão-de-obra sem qualificação’’, lembra. A falta de emprego está ‘‘esvaziando’’ os pequenos municípios. Os trabalhadores, sem emprego, vão para outras regiões em busca de novas oportunidades.
Quem continua plantando algodão na região de Maringã é porque investe em tecnologia. ‘‘Mas é preciso ter grandes áreas, para viabilizar a mecanização’’, comenta Wiliam Meneguel, técnico do Deral do núcleo da Secretaria de Agricultura em Maringá. Ele calcula que a área plantada nesta região não passe dos 3 mil hectares, quase tudo em grandes áreas. ‘‘Hoje a indústria busca preço, qualidade e prazo para comprar, o que acaba eliminando o pequeno produtor’’, compara. Ele diz que a produtividade média na região gira em torno de 2 mil quilos por hectare.
ProfissionalismoO superintendente comercial e industrial da Cocamar, de Maringá, Celso Carlos dos Santos Júnior, confirma que o algodão se tornou cultura para ‘‘profissionais’’. ‘‘O que reflete na área cultivada’’, diz. Ele calcula que a produção na região de abrangência da cooperativa fique em torno de 4 mil toneladas, o suficiente para quatro meses de consumo da fiação. Para o agrônomo José Roberto Gomes, também da Cocamar, foi o custo da mão-de-obra que obrigou os pequenos produtores a abandonar o algodão.
Ele calcula que uma lavoura bem conduzida, consumia 30% da renda com a cultura. ‘‘Por isso os grandes produtores estão investindo na mecanização’’, explica. O problema é a topografia da região, sem grandes áreas planas, o que inviabiliza o uso de colheitadeiras. Segundo Gomes a região de abrangência da Cocamar chegou a ter 40 mil hectares com algodão. Hoje não passa dos 12 mil. ‘‘Acreditamos em um crescimento gradual da área, porque o produtor que está na cultura encontra possibilidade de lucro, e está disposto a investir’’, explica. Mas, ninguém acredita que o algodão voltará a ocupar a mesma posição no Paraná.Área retoma crescimento, mas não chega a 10% do que já foi há menos de uma dezena de anos
Apesar da estiagem no período recomendado para plantio, área paranaense deverá ser de 60 hectares este anoTécnicos esperam crescimento gradual da área, porque o produtor que está na cultura encontra possibilidade de lucro e está disposto a investirCultura do algodão está entre as que mais geram empregos no campo: um hectare equivale a um emprego

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