Paraná é referência tecnológica
PUBLICAÇÃO
sábado, 07 de dezembro de 1996
Silvana Leão 
Na safra 95/96, 37% do solo destinado à agricultura no Paraná foram cultivados através de plantio direto. Proporcionalmente à sua área interna, o Estado perde para Santa Catarina (62% da área com plantio direto) e Rio Grande do Sul (50%). Em razão da maior dimensão geográfica, porém, representa, de acordo com a Federação Brasileira de Plantio Direto, 60% da área nacional cultivada através deste sistema.
Por estar na vanguarda das tecnologias adotadas para conservação e recuperação do solo, o Paraná - e os profissionais da pesquisa que atuam na área - tem servido de referência para outras regiões do País e também para os vizinhos da América Latina, que começaram a perceber, nos últimos anos, a necessidade de abandonar práticas agrícolas que provocam a degradação dos recursos naturais com o passar do tempo.
Ademir Calegari, pesquisador da Área de Solos do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), é um dos que têm sido convidados frequentemente para falar da experiência pioneira do Estado em encontros nacionais e internacionais sobre plantio direto. Ele afirma que o assunto é visto, cada vez mais, como condição fundamental para a recuperação da produtividade por pequenos e grandes produtores em todo o mundo.
Crescimento rápido Em recente viagem à Bolívia e ao Paraguai, Calegari pôde novamente constatar esta tendência. Ele lembra que na Bolívia, onde participou de reunião de trabalho e atuou como consultor em visitas a campo, a introdução deste sistema de cultivo é praticamente uma novidade. Mesmo assim, espera-se atingir uma área próxima a 90 mil hectares já na próxima safra.
No Paraguai, onde o pesquisador também fez consultoria a projeto de desenvolvimento de solo degradado em culturas de subsistência, mantido através de cooperação técnica entre uma empresa alemã e o Ministério da Agricultura paraguaio, a crença nos benefícios do plantio direto são visíveis: O País adota o sistema há cerca de três anos apenas, e se estima que a área de cultivo sobre palha este ano chegue a cerca de 400 mil hectares, afirma.
Segundo Calegari, os produtores paraguaios, inclusive alguns totalmente descapitalizados, estão preocupados em encontrar maneiras de retomar a fertilidade do solo, depois de anos de aração contínua e forte degradação causada pela erosão, queimadas e uso intensivo de máquinas. E o plantio direto, sem dúvida, é a saída para reverter este quadro: Trata-se de um sistema muito mais adequado e mais importante às condições do clima tropical e subtropical do que, por exemplo, às regiões de clima temperado da Europa, onde ele nasceu.
Incentivos O Brasil já tem a segunda maior área de plantio direto no mundo (mais de cinco milhões de hectares), só perdendo para os Estados Unidos, que têm mais de 17 milhões de hectares plantados atualmente através do sistema, e pretendem atingir, até o ano 2000, os 30 milhões de hectares. É o sistema de manejo de solo para culturas anuais que mais cresce nos Estados Unidos, afirma Ademir Calegari.
E não é para menos. Graças à adoção do tripé formado pela rotação de culturas, adubação verde e plantio direto, áreas totalmente degradadas, como as registradas no Estado da Georgia, depois de 150 anos de cultivo de algodão, foram recuperadas e hoje são exemplo de produtividade.
O sistema convencional de plantio é degradador, empobrece as características do solo e diminui sua capacidade produtiva. Por outro lado, o plantio direto se caracteriza por ser a forma mais racional de cultivo e, acima de tudo, mais rentável, defende Calegari.
E por ser um sistema altamente ecológico, preservador do ambiente, o pesquisador acha que deveriam existir formas de incentivo aos produtores que o adotassem. Isto, na opinião dele, contribuiria para que o plantio direto ganhasse mais terreno no Brasil, onde grande parte dos produtores ainda não está convencida de seus benefícios.
Dinamismo Os agricultores ainda não se deram conta que não é preciso comprar novas máquinas para adotar esta forma de cultivo, mas apenas adaptar as já existentes na propriedade. Além disso, Calegari lembra que o plantio direto é altamente dinâmico, exigindo do produtor rural muito mais capacitação e raciocínio do que força física. Para os mais acomodados, isto acaba sendo um problema.
O dinamismo da técnica de cultivo, de acordo com o pesquisador do Iapar, impede que o produtor utilize a mesma fórmula por anos a fio. Calegari ressalta a importância de adotar o sistema como um todo, ou seja, só plantar sobre palha ou só plantar adubo verde não resolve. É preciso que todas as práticas - adubação verde, rotação de culturas e plantio direto - sejam adotadas em conjunto.
Em alguns casos, as falhas na adoção integral do sistema causam prejuízos diretos no bolso do produtor. Um exemplo é o aparecimento de pragas como lesma, piolho-de-cobra e coró, que se instalam na palha e comem a semente da soja antes que ela germine. Na maioria dos casos, o problema poderia ser evitado com rotação de cultura, definida por Calegari como uma eficiente arma para diminuir a pressão populacional de doenças e pragas.
A palha tem que ser alterada constantemente, para que haja sempre um equilíbrio entre os organismos que se desenvolvem dentro dela, ensina. Em relação à matéria orgânica produzida através dos resíduos deixados no solo, o pesquisador explica que é o principal componente para aumentar a capacidade de retenção dos cátions (cálcio, magnésio e potássio, principalmente) no solo. A argila dos solos brasileiros, em geral, tem pouca Capacidade de Troca de Cátions, que chamamos de CTC dependente de pH. E como a matéria orgânica tem alta CTC, funciona como uma esponja, que segura estes elementos no solo.


