A transição do Paraná de área livre da febre aftosa com vacinação para sem a imunização, que tende a garantir maior receita na exportação de carnes, depende de políticas públicas confiáveis, duradouras e que contem com a participação de toda a cadeia produtiva, segundo a cobrança de representantes políticos municipais, estaduais e federais. A conclusão saiu do debate "Paraná livre de aftosa sem vacinação", entre líderes de entidades do agronegócio e de pesquisa, promovido na última terça-feira pelo Grupo Folha, no Auditório Frezarin, em Londrina.

O objetivo foi tentar trazer luz à polêmica que envolve o fim da imunização dos animais em troca do aumento de barreiras sanitárias físicas. O maior temor é que as constantes trocas de comando em ministérios e secretarias possa interferir no desenvolvimento de um trabalho que precisa ser permanente, tem alto custo e, caso não seja bem executado, arrisca contaminar todo o rebanho estadual. "Destacamos a necessidade de debater mais profundamente a iniciativa de tornar o Paraná uma área livre de aftosa sem vacinação. A iniciativa parece ser muito boa para a cadeia produtiva do Estado, mas ouvimos outros questionamentos que alertam sobre os caminhos a se tomar", disse o superintendente do Grupo Folha, José Nicolás Mejía, na abertura do evento.

Por isso, foram convidados como painelistas o presidente da Sociedade Rural do Paraná (SRP), Moacir Sgarioni, o diretor presidente da Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar), Inácio Afonso Kroetz, o assessor técnico da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep) Antônio Poloni e o pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da Universidade Estadual de Londrina (UEL), o veterinário Amauri Alfieri. A Adapar e a Faep são duas entidades que apontam a necessidade do avanço na vigilância sanitária no Estado, de forma a gerar mais receita para a cadeia produtiva de proteína animal, enquanto a SRP e o professor da UEL demostram preocupação com a eficiência da decisão.

Kroetz destacou que o Paraná é o principal produtor de proteína animal do País, principalmente quando se considera a cadeia inteira. Mesmo assim, não tem as barreiras necessárias para dar o próximo passo sanitário, de interromper a imunização. "Não pode superestimar a vacinação, que só protege da manifestação clínica, mas não impede a infecção", disse. "Precisamos de estrutura física e recursos humanos para cumprir todas as obrigações de defesa, com capacitação, estáveis, para evitar risco", completou.

O representante da Faep foi quem mais pediu a colaboração entre todos os entes da cadeia para cobrar uma política pública forte para a vigilância sanitária. "Mostrar eficiência no sistema de defesa gera credibilidade, que é o grande problemas do País hoje", disse Poloni, ao lembrar que países como Botsuana liberam até mesmo pedaços de estados da vacinação para exportar. Porém, ele ressaltou que aqui os governantes nem mesmo repõem adequadamente os funcionários que se aposentam. "Precisamos que (governantes) priorizem a questão sanitária, porque a economia demonstra o quanto o País perde com essa questão."

Preocupado com a capacidade técnica do País, Alfieri lembrou que Margaret Thatcher, primeira ministra do Reino Unido nos anos 80, deixou de investir em defesa sanitária por contingenciamento de gastos. "O funcionário se aposentava, não substituíam, outro se demitia, não recontratavam, e isso não estourou no governo dela, mas na mão do Tony Blair", disse, ao lembrar que foi sob o comando dele, em 2001, que o País voltou a registrar casos de aftosa. "Porque não tinha defesa, por uma política de um governo anterior", completou.

Para o presidente da SRP, no entanto, a preocupação comercial dos produtores é grande. As barreiras estaduais dificultariam a entrada de animais criados em outros estados, encarecendo a cultura sem que houvesse garantia de ganhos. Por isso, pediu pressão sobre representantes do setor no Legislativo para que a decisão seja em bloco. "Como entidade, temos de cobrar gestão política mais agressiva, comercialmente falando. Temos de saber comprar, produzir e também vender", disse. "Existe o momento certo e a segurança adequada e entendo que uma decisão dessas tenha de partir do governo federal."

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