Palmito feito da ponta da cana
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de dezembro de 1997
Cláudia Barberato 
Rui Aguiar mostra a debulha do ponteiro da cana, da onde será retirado o palmitoO agrônomo Rui Alcântara de Aguiar, que trabalha na prefeitura de Ibiporã, tem um projeto curioso: transformar os ponteiros da cana-de-açúcar em palmitos comestíveis, fazendo aproveitamento total da cana, já tradicionalmente destinada à produção de açúcar e álcool e utilizada na alimentação animal. Além de ser alternativa econômica, a utilização do palmito poderá diminuir muito a devastação indiscriminada e predadora do palmito da Mata Atlântica, afirma.
O palmito é tirado após o último nó do ponteiro da cana. Debulha-se a palha e tira-se o miolo. Este palmito não pode ser feito de cana queimada. O mais atraente é o preço, cerca de R$ 1,00 de custo de produção para um vidro de 300 gramas (incluídos custos com vidro, tampa, processo industrial, mão-de-obra, produtos químicos e frete), que poderá ser vendido com preço bem abaixo dos tradicionais palmitos encontrados no mercado.
SaborosoDe acordo com o agrônomo, o palmito feito da ponta da cana tem sabor igual ao tradicional
Tecnologia nossaO projeto de pesquisa para desenvolver o produto foi iniciado há três anos. A idéia partiu de uma publicação da Estação Experimental de Cana-de-Açúcar de Piracicaba, SP, do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), que relatava a visita de pesquisadores a um congresso sobre cana-de-açúcar na China e experiências do palmito em conservas.
Voltando ao Brasil, os pesquisadores iniciaram trabalho nesse sentido, mas não obtiveram êxito. Depois de três anos de experiências e pesquisas, consegui desenvolver a tecnologia e cheguei ao palmito da ponta da cana, que considero ideal, conta o agrônomo.
Programas sociaisA intenção do agrônomo é colocar o produto, ao custo de R$ 1,20 o vidro de 300 gramas, na merenda escolar e, além disso, estender o uso para outros programas sociais como o Comunidade Solidária, do Governo Federal; assentamentos do Incra e reservas indígenas.
Para o consumidor, ele supõe que o preço nos supermercados possa ser na faixa de R$1,60 (vidro de 300 gramas), bem inferior ao produto extraído da Mata Atlântica, que tem custo final para o consumidor entre R$ 4,50 e R$ 7.
Mas, o agrônomo avisa que a produção do palmito só é viável para quem já produz a cana industrial. Não compensa plantar só para fabricar o palmito; é preciso ter total aproveitamento da cana.
Milton DóriaO produto poderá chegar aos consumidores com preços até três vezes menores
DestilariaAs experiências com a ponta da cana deverão culminar na implantação de uma destilaria na Taquara do Reino, distrito de Ibiporã, através da Coopereino (Cooperativa dos Produtores e Consumidores de Álcool e seus Derivados da Taquara do Reino), uma cooperativa formada por 53 produtores.
É a produção desses cooperados (cerca de 700 hectares de cana para produção de 15 mil litros de álcool por dia) que irá abastecer também a industrialização do palmito. Haverá ainda um confinamento de 2.100 cabeças de gado que serão alimentadas a base de cana. O projeto está no agente financeiro para implantação da destilaria na Taquara do Reino e o próximo passo será pedir os registros exigidos para a produção de conservas.
Aguiar, que trabalha como assessor técnico da Codese (Companhia de Desenvolvimento), de Ibiporã, já conseguiu, com apoio da prefeitura viabilizar a produção experimental de 200 vidros de palmito. As pontas de cana para a produção foram cedidas pela Cooperativa Agrícola de Rolândia (Corol).
Aproveitamento totalEm cada hectare de cana pode-se produzir 483 quilos de palmito, extraídos do ponteiro, que correspondem a apenas 1% da planta. Outra parte dessa planta (9%) poderá ser aproveitada na alimentação animal (confinamento de gado), sendo o restante do colmo (90%) utilizado normalmente para produção de açúcar e álcool.
O palmito é obtido do ponteiro da cana, após a eliminação das partes fibrosas. O teor de proteína bruta é de 2,10%, próximo ao do palmito comum da palmeira - 2,18%. Numa escala de 1 a 10, considerando sabor e paladar, Aguiar garante que o palmito da Mata Atlântica tem nota 10; broto de bambu 3; e o palmito de ponta da cana 8.
Em um hectare podem-se produzir 1.500 vidros de palmito de 300 gramas. Com esse produto, poderemos atingir o mercado internacional e até amenizar a devastação da Mata Atlântica, em regiões onde a extração do palmito da palmeira é indiscriminada e predatória.
O agrônomo sugere que a mão-de-obra para a industrialização seja somente feminina e, para cada hectare de cana, será gerado um emprego. As trabalhadoras poderão fazer a extração sentadas, o que propiciaria a contratação de deficientes físicos sem qualificação profissional específica para a atividade no campo.
O processo industrial tem baixo custo, afirma Aguir. Segundo ele, além da contratação da mão-de-obra, é necessário ter mesas, recipientes pláticos para colocar as pontas de cana de molho na água, além dos produtos químicos como conservantes.
Proteção ambientalNas destilarias de álcool é comum a queima do canavial. No caso da cana queimada, segundo o agrônomo, um homem pode cortar de 7 a 9 toneladas/dia. Sem queimar, ele consegue cortar de 2,5 a 3 toneladas/dia. Com o aproveitamento da ponta sem queimar, os proprietários dos canaviais e destilarias serão compensados financeiramente, gerando mais empregos no corte e na indústria.
A queima do canavial, lembra o agrônomo, contribui para aumentar o efeito estufa; o empobrecimento do solo com a morte dos microorganismos e da matéria orgânica; coloca em risco as redes elétricas e outras redes aéreas; provoca a queima da mata nativa e, principalmente, das ciliares; polui com a fuligem as áreas próximas das cidades e, quando a queima é próxima de rodovias, sua fumaça pode provocar acidentes de trânsito.


