Palhada garante saúde do solo
Paulo Pegoraro
De Cascavel
O plantio direto já ocupa 90% da área agrícola do Oeste paranaense, onde é feita a semeadura direta de soja, milho e trigo, eliminando o preparo convencional com aração ou escarificação e gradagem. Trata-se de importante avanço em uma região que, até o final dos anos 80, permitia que o fértil solo fosse corroído pela erosão, e a palhada de culturas anteriores desaparecia a cada preparo do solo, pela sua mineralização e volatilização do carbono para a atmosfera.
A utilização da palhada em meio a lavouras melhora a saúde do solo e também as finanças dos produtores rurais, porque reduz a necessidade de produtos químicos. A técnica, que faz parte do sistema de plantio direto, está sendo estimulada no Oeste paranaense pela Estação Experimental do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar). A estaação ocupa área de 80 hectares em de Palotina.
DegradaçãoAlém da crescente perda da produtividade dos solos, da renda dos produtores e do assoreamento dos rios, pela erosão, aquele modelo de agricultura contribuía para o aumento do efeito estufa, em função da grande liberação de carbono. Os técnicos consideram que, praticamente superado o tempo (pelo menos na região) em que a erosão era uma catástrofe, o maior desafio da agricultura passa a ser a sustentabilidade agroeconômica.
O pesquisador do Iapar, Elir de Oliveira, que atua na Estação Experimental de Palotina, observa que não basta apenas deixar de arar o solo a cada safra e trocar o binômio soja-trigo, que vigorava até há alguns anos, por soja-milho-safrinha, porque isso acaba acarretando novos problemas.
Elir salienta que a adoção do milho safrinha nas propriedades tem obrigado o produtor a semear a soja mais cedo, quando o teto de rendimento das cultivares não é dos mais elevados, e em consequência não se aproveita o potencial genético dos materiais. Além disso, após a colheita do milho safrinha, ocorre um longo período até a semeadura da soja. Em consequência, o solo fica descoberto, resultando na proliferação de sementes de plantas daninhas.
OpçõesNesse quadro, com o intuito de reduzir os custos com herbicidas, com ervas já adultas, muitos produtores lançam mão de grade pesada para efetuar o preparo do solo para o plantio da soja, observa Elir de Oliveira. O pesquisador do Iapar afirma que é necessário persistir no sistema de plantio direto, que envolve rotação de culturas, formação de palhada na superfície do solo, podendo a propriedade ser dividida em talhões.
Com isso, ficam reservados espaços para soja, milho, milho safrinha, sorgo safrinha, trigo, triticale, e aveia-grão, e se pode adotar ainda plantas de cobertura, como aveia de ciclo longo. Os técnicos da Estação Experimental comprovaram a eficácia da aveia preta Iapar 61 e da branca Iapar 96101-B (esta, em fase de lançamento), e também do nabo, para antecipar a soja. Para antecipar o milho, aveia consorciada com ervilha forrageira Iapar 83.
A aveia também pode ser pastoreada pelo gado de leite ou corte, restando a leguminosa como fonte de nitrogênio biológico para o milho. Segundo Elir de Oliveira, os produtores mais conscientes podem manter o solo coberto durante o ano todo, o que poderá ser conseguido com a introdução da leguminosa Crotalária júncea (de crescimento rápido e muito usada em zonas canavieiras de São Paulo) ou guandu Iapar 43 semeado imediatamente após a colheita do soja ou milho.
A rolagem é feita no final de abril, para semeadura da cultura de inverno. Após a colheita do milho safrinha, pode ser semeado o milheto ou capim moha, no início de setembro, antecipando a semeadura da soja em novembro. Outra opção de cobertura do solo pode ser a semeadura da mucuna-anã, leguminosa que fixa o nitrogênio e reduz o uso de produtos químicos, intercalada com o milho, em operação simultânea, ou no momento da adubação de cobertura nitrogenada no milho.
Neste caso deve ser evitado o herbicida residual de folhas largas, e a mucuna-anã, como planta usada no manejo de nematóides, pode ser deixada para simples cobertura do solo ou produção de sementes - cujo preço no mercado é de aproximadamente R$2,50 por quilo. Para Elir de Oliveira, através do sistema de plantio direto, nos solos argilosos do Oeste do Paraná, atenuam-se algumas agressões ao solo, que nem sempre se podem evitar.
Entre as agressões, semear, pulverizar, e, principalmente, colher com o solo úmido. Com um manejo adequado, não é necessário usar o escarificador para desadensar o solo, interrompendo o sistema de plantio direto. Da mesma forma que a densa palhada evita a compactação, também funciona como estabilizador da temperatura, que no verão pode chegar a 60 graus no solo descoberto, contra 29 graus onde tem cobertura de palha.
Uma das áreas mais antigas de sistema de plantio direto na região Oeste é a da Estação Experimental de Palotina, que tem 80 hectares, dos quais 7 hectares servem como unidade demonstrativa, pois nela há 19 anos são feitos o plantio direto e a rotação de culturas. No início deste ano e no final do ano passado, a escassez de chuva deixou ainda mais nítidas as vantagens do sistema. A soja foi semeada 10 dias após a última chuva, sobre densa palhada da aveia branca (de ciclo longo).
EfeitosA técnica permitiu a manutenção da umidade no solo, suficiente para a germinação da soja. Na área não foi observado ataque de broca na fase inicial da cultura, causado pela lagarta elasmo, ao contrário do que ocorreu na maioria das lavouras que não apresentavam cobertura do solo, havendo caso de necessidade de replantio. Os técnicos destacam também como fator importante a redução de custos na produção da soja.
Eles explicam que a aveia completou seu ciclo, sendo colhida para semente, e o controle de plantas daninhas foi feito apenas através de catação manual, por seis homens/dia na área de 7 hectares. Não houve necessidade de aplicação de herbicida de manejo do plantio direto, nem de herbicida residual na semeadura ou de pós-emergência da soja. Para Elir de Oliveira, o experimento permitiu avaliar a resposta de soja sobre níveis de palhada.
Houve uma diminuição de 13% no rendimento da soja onde a aveia foi totalmente coletada para produção de feno , comparando-se com a área onde ela foi semeada sobre a aveia dessecada sem corte. O pesquisador acrescenta que é importante o produtor conhecer as características dos cultivares de aveia, pois é uma das culturas que apresentam maior variabilidade genética, desde o ciclo até a produção de biomassa, grãos, tolerância às doenças e variação nas densidades de sistemas radiculares.
Na área demonstrativa foram coletadas amostras da palhada na fase de pré-florescimento da soja e se constatou cobertura de 9 toneladas de matéria seca na área de aveia semeada em abril de 99 e 5,5 toneladas na semeada em maio. Os altos níveis de palhada indicam o caminho para uma agricultura moderna, comenta Elir, acrescentando que as plantas se desenvolvem melhor em um ambiente que permita maior tolerância às adversidades climáticas típicas, além de ocorrer grande redução nos custos com herbicidas.





