Toda a cadeia produtiva da carne tem procurado organizar-se, para que cada um, no seu setor, tenha menor prejuízo e, consequentemente, maior lucro. O trabalho começa na compra dos animais, na genética, manejo e nutrição corretos que proporcionarão produção de carne mais cedo. Saindo da propriedade, se quer melhor remuneração no frigorífico, que pede qualidade não só da carne, mas também do couro. Do frigorífico para a indústria de processamento do couro, outras medidas vêm sendo tomadas, para minimizar as perdas e aumentar a produção.
O Brasil é o terceiro maior produtor de calçados do mundo, mas tem potencial para mais. O País tem o maior rebanho bovino comercial (165,7 milhões de cabeças), mas perde quando o boi chega no frigorífico e não há aproveitamento ideal do couro. Os problemas com a qualidade começam no campo e prosseguem em todo o processo, até chegar à indústria de processamento.
Nessa década cinco bilhões e seiscentos milhões de dólares foram perdidos em couro, segundo dados do Centro das Indústrias de Curtume do Brasil (CICB). Isto significa 18 milhões de bois jogados fora. Embora se tenha grande oferta de couro, a indústria brasileira tem que importar couros de melhor qualidade, para a fabrição de artigos de primeira linha destinados aos mercados interno e externo.
Produção e qualidadeComo melhorar a qualidade do couro brasileiro será um dos temas do 2º Encontro Nacional dos Confinadores e 3º Encontro Nacional do Novilho Precoce. Os eventos serão realizados nos dias 5 e 7 de agosto, em Uberlândia (MG). Segundo os organizadores, estarão reunidos cerca de 500 pecuaristas de todo o País, além de outras pessoas da cadeia produtiva da carne.
Especialistas do Brasil e do Exterior abordarão aspectos específicos da moderna pecuária de corte e produção do novilho precoce. Uma das palestras será sobre o Programa Brasileiro de Qualificação do Couro, pelo vice-presidente do CICB, Arnaldo Frizzo.
Maior produtorDe acordo com o vice-presidente do CICB, Arnaldo Frizzo, também diretor superintendente da Braspelco (empresa que faz o processamento do couro), a tendência que o segmento da pecuária bovídea de corte reduza em países desenvolvidos e aumente em países em desenvolvimento, projeta que o Brasil seja o maior produtor mundial de carne bovina e couros crus.
A empresa Braspelco, com sede em Minas Gerais, diz Frizzo, tem um programa de qualidade voltado para o couro, que está sendo apoiado pelo Conselho Nacional de Pecuária de Corte (CNPC) e deverá ser repassado para outros setores da cadeia produtiva da carne.
ParceriasFrizzo acredita que é preciso intensificar as parcerias no setor, para corrigir os problemas da cadeia da pecuária. Já se trabalha pelo abate precoce, carne diferenciada na qualidade e não se tem um cuidado básico com o couro dos animais que são destinados ao abate.
Alguns pecuaristas afirmam que não recebem remuneração pelo produto, mas poucos evitam danos aos animais ou fazem a marcação do gado em lugar correto. O mercado remunera o que é ofertado. A oferta de couros destinados à indústria seria uma pressão por remuneração ou preços melhores. ‘‘Porque o mercado penalizou o produto brasileiro? O mercado é justo e remunerou a subqualidade com subpreço.’’
‘‘Mudar essa realidade tem sido o empenho da indústria e agora de toda a cadeia produtiva, já que o Conselho Nacional de Pecuária de Corte e outros órgãos do setor produtivo estão procurando adotar o Programa Brasileiro de Melhoria do Couro Cru, desenvolvido pela Braspelco e que agora será estendido a toda a cadeia produtiva da carne bovina’’, acrescenta Frizzo.
Menor remuneraçãoPara desenvolver melhorias no setor é preciso, segundo Frizzo, comparar dados do Brasil com indicadores de outros países, especialmente dos Estados Unidos. O rebanho bovino brasileiro é de 165,7 milhões de cabeças, com abate de 28,5 milhões e desfrute de 17,1%. Nos Estados Unidos, por exemplo, com um rebanho menor (103,8 milhões), o número de abates é superior (36,7 milhões) e a taxa do desfrute é o dobro (35,3%).
No caso do couro, entre 1986 a 1995, o frigorífico americano recebeu, em média, US$48,10 por couro, enquanto o frigorífico brasileiro recebeu apenas US$27,01/couro. O diferencial por perda de qualidade, somente no couro, em relação ao americano, foi de US$21,09.
Na fazendaA falta de aprimoramento genético do rebanho, decorrente da não precocidade do abate (quanto mais velho for abatido o animal, maior a probabilidade de defeitos no couro), diversidade na qualidade dos couros quanto a tamanho, espessura e peso, mais a falta de padrão do animal abatido, são as principais causas da baixa remuneração do produto brasileiro.
Na fazenda, o manejo deficiente resulta em infestação de bernes, carrapatos, mosca-do-chifre, sarna e outros problemas. Aplicação de vacinas em locais errados; uso de cercas de arame farpado; currais com pontas cortantes (madeira, pregos, parafusos) e pastagens sujas provocam danos ao couro. Marcas de fogo em tamanhos, quantidades e locais diversos, embora exista regulamento para isso, também são comuns.
Baixo padrãoO problema segue no transporte dos animais em carrocerias com parafusos, pregos e madeiras que danificam o couro. O uso de ferrão pontiagudo para tocar os animais também provoca ferimentos.
No pré-abate as deficiências começam no uso de facas inadequadas e a falta de esfoladeiras pneumáticas para a retirada do couro, provocando excessos de furos e cortes no couro e carcaça. A falta de treinamento dos funcionários da indústria frigorífica, em geral, repercute nos processos posteriores da industrialização.
‘‘No máximo 10% do melhor couro resultante do abate brasileiro são comparáveis aos 80% do melhor couro do abate americano’’, afirma Frizzo. De acordo com esse dirigente, existe um conceito ‘‘errado’’ por parte de pecuaristas brasileiros, que acreditam não receberem nada pelo couro de seus animais.
Ele explica: ‘‘Na realidade o frigorífico se caracteriza por ser uma indústria de desmanche. Cada um dos itens tem um peso em sua composição de custos: o corte traseiro representa 57% do custo do boi; o corte dianteiro, 22%; a ponta de agulha, 9% do custo do boi; o couro verde, 7% e os subprodutos 5% do custo do boi.’’
Margem de lucro‘‘Uma margem de lucro entre 2% e 3% é considerada como excelente dentro da indústria frigorífica’’, garante Frizzo. ‘‘Caso a afirmativa dos pecuaristas fosse verdade, um frigorífico que abate 15 mil animais/mês, considerando a remuneração média por couro de US$27,01 (1986-1995), teria um lucro mensal de US$405.150,00. Nestas condições, seguramente não teríamos hoje muitos frigoríficos com sérios problemas financeiros.’’
A indústria de curtumes, informa Frizzo, reúne 560 empresas, com 65 mil funcionários e um faturamento anual de US$2,5 bilhões. A expectativa de exportação em 98 é de U$750 milhões. A melhoria de qualidade do couro no Brasil, além de refletir nas indústrias de curtumes, também terá importância para as indústrias de calçados, artefatos e estofados.

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