Painas ao vento
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sábado, 14 de setembro de 2019
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Algumas lembranças ficam para sempre na memória, estão lá guardadas e de repente aparecem, emergem. Aconteceu comigo alguns dias atrás, quando passei em frente ao estádio de futebol da cidade de Apucarana. Lembrei que outrora aquele lugar era parte do sítio São José, que pertenceu à família Barreto. Estive no sítio algumas vezes e conheci seu Olímpio Barreto, um dos proprietários, nascido em Birigui – SP, que sempre viveu e trabalhou na lavoura.
A maior parte dos vinte e cinco alqueires da propriedade era reservada para plantio de café e pastagem. No restante, seu Olímpio plantava a lavoura branca: cana, milho, arroz, amendoim, feijão, pipoca, vassoura. Trabalhador incansável, além dos cuidados na lavoura era caprichoso com o pomar e tratava com carinho as vacas leiteiras, Tangerina, Duquesa, Boneca, Pitanga e Bombom, bem como o touro Gregório, todos da raça holandesa. Durante bastante tempo manteve uma criação de porcos da raça Piau, porque achava os porcos belíssimos, resistentes e fáceis de alimentar.
Seu Olímpio gostava muito de futebol e era torcedor fanático do Apucarana Esporte Clube (1962-1970) e do Apucarana Atlético Clube (1975-1996), por isso em meados da década de 1960 doou uma parte das terras do sítio para a construção do estádio da cidade. Foi agraciado como sócio remido, passou a ter entrada livre para assistir treinos e jogos e, com seu inconfundível chapéu, não perdia uma partida sequer.
Inaugurado em 29 de janeiro de 1967 com um jogo entre a Sociedade Esportiva Palmeiras e a seleção de Apucarana, inicialmente o estádio se chamou Paulo Pimentel, depois Bom Jesus da Lapa e no ano de 2012, por força de lei, passou a se chamar Estádio Municipal Olímpio Barreto – “Irmãos Barreto”, em reconhecimento à família que deu o terreno.
Além de futebol, seu Barreto apreciava árvores e espalhou várias espécies pela propriedade: araucárias, santas-bárbaras, flamboyants, ipês. Mas tinha gosto especial pelas paineiras. Plantou quatro delas num local plano perto do terreirão de café. Duas paineiras brancas e duas rosas. Fez isso porque sabia que a paineira rosa floresce em março e a branca floresce em maio. Assim podia apreciar em dobro a época das floradas. Na frutificação, quando o chão ficava forrado de painas cor de rosa, ele dizia que era uma nuvem de algodão doce. Depois, quando a forração era na cor branca, brincava dizendo que parecia um jardim de leite.
Muitas vezes, durante o outono, deixava a lida da roça para ajudar um casal de vizinhos, seu Walter e dona Érika, que vinham recolher as painas para fazer acolchoados e travesseiros, os quais vendiam para as pessoas da região na chegada do inverno. Com o passar dos anos a cidade cresceu muito e praticamente engoliu o sítio que ficava perto da área urbana, não restando alternativa para a família a não ser a venda da propriedade. Antes de falecer, seu Barreto costumava visitar o estádio vazio e passava alguns momentos sob a sombra das paineiras. Parecia que flutuava, como painas ao vento. Por certo ficava feliz com o legado que estava deixando.
"Além de futebol, seu Barreto apreciava árvores e espalhou várias espécies pela propriedade, mas tinha gosto especial pelas paineiras"
Gerson Antonio Melatti, leitor da Folha


