Padrão único garantiria qualidade
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sábado, 14 de novembro de 1998
Vânia Casado 
Graças à análise feita por esses laboratórios especializados, instalados por produtores e laticínios, em cooperação, se o produto apontar as características exigidas de qualidade, as indústrias terão mais respaldo para dar um bônus de aproximadamente 25% sobre o valor atual do leite pago ao produtor. A tendência do setor aponta para o estabelecimento de um único padrão para o leite, eliminando a classificação de A, B ou C, disse Newton Pohl Ribas, coordenador do Seminário Internacional sobre Qualidade do Leite, encerrado esta semana em Curitiba.
Após o seminário, os coordenadores encaminharam um documento ao governo Federal, contendo novas propostas para aperfeiçoar o Programa de Melhoria da Qualidade do Leite, do Ministério da Agricultura. Ficou estabelecido pelos participantes que os critérios para avaliar a qualidade devem levar em consideração os itens gordura e proteína; a contagem de células somáticas e o controle da contagem de bactérias. Esses itens revelarão o estado de sanidade dos animais na propriedade e se as instalações de ordenha são higiênicas ou não.
AnáliseConforme a proposta, as amostras de leite para análise deverão ser encaminhadas a laboratórios regionais que terão equipamentos eletrônicos de última geração, para emitir laudos em tempo recorde. Os exames revelarão se o produto atende ou não as exigências de qualidade, e o laboratório emitirá um laudo, que dará respaldo ao pagamento de bônus por parte da indústria.
Os laboratórios deverão ser instalados conforme os padrões oficiais, com investimentos privados da indústria e das associações de criadores, mas monitorados por técnicos do Ministério da Agricultura, para que os exames tenham mais confiabilidade.
Arquivo FRGordura e proteína, células somáticas e bactérias. Análises revelarão estado de sanidade dos animais e higiene na ordenhaSegundo Ribas, o Brasil dispõe de três laboratórios de última geração para análise da qualidade do leite. Ele apontou o laboratório de Passo Fundo (RS), resultado de um convênio entre a Universidade de Passo Fundo e os criadores gaúchos. O laboratório analisa aproximadamente 30 mil amostras por mês, mas com a obrigatoriedade poderá ampliar para 70 mil amostras por mês.
Outro laboratório é operado pela Associação Paranaense de Criadores de Bovinos da Raça Holandesa (APCBRH), em Curitiba. Este laboratório, em convênio com a Universidade Federal do Paraná, existe desde 1991 e analisa as amostras encaminhadas por cooperativas como a Clac, Witmarsum, Batavo, Cativa e cooperativas de Santa Catarina. Ele recebe, em média, 25 mil amostras por mês e poderá estender este atendimento para 70 mil amostras/mês nos Estados do Paraná e Santa Catarina.
Em Juiz de Fora (MG) também existe um laboratório, fruto de um convênio da Embrapa com os criadores e indústria. Em São Paulo e no Nordeste não há laboratório definido para as análises. Ribas calcula que um laboratório nos moldes dos três já existentes exige investimento entre US$750 mil e US$800 mil, que podem ser bancados pela indústria e associações de criadores.
ProfissionalizaçãoPara Ribas, assim como os produtores, a indústria também tem que se preparar com estrutura adequada para receber uma matéria-prima de qualidade. Segundo ele, a disputa pelo mercado está ficando cada vez mais profissional e ou a indústria se adapta ou vai perder mercado, porque as importações não vão parar, prevê.
Ribas admite que muitas indústrias e produtores estão em dificuldades para fazer investimentos e por isso o setor vai negociar com o governo Federal a abertura de uma linha de crédito para modernizar a pecuária. As indústrias pleitearão recursos para a aquisição de resfriadores para acondicionar o leite na propriedade. Cada equipamento desse custa entre US$3 mil e US$8 mil, no caso de resfriadores comunitários. Além disso os produtores reivindicarão recursos para compra de equipamentos de ordenha mecânica, para atender as exigências de cadastramento dos produtores de leite C.
InspeçãoO ministério da Agricultura está preocupado com a falta de inspeção na qualidade do leite. Técnicos do Ministério estimam que 60% do leite comercializado não passam por nenhum tipo de inspeção e estão no mercado informal. Ribas afirmou que o ministério fecha o olho para essa pratica. Para Ribas, o leite produzido no Brasil só passará a ter qualidade quando as autoridades começarem exigir o controle do produto.
Uma nova legislação entrará em vigor em janeiro de 1999, para regularizar o setor de produção de leite. Os produtores de leite C terão que ser cadastrados no ministério da Agricultura e atender as exigências mínimas de higiene e qualidade, a exemplo do que já existe para produtores de leite A e B. Com isso, o leite C também será submetido a análises que indicarão o padrão microbiológico do produto. Na propriedade, os produtores terão que ter o acompanhamento de um médico-veterinário que emitirá os certificados de sanidade do rebanho e das instalações.
Essa legislação está sob consulta às indústrias e associações de criadores, que poderão apresentar propostas e emendas, informou a médica-veterinária do ministério da Agricultura, Vera Regina Monteiro de Barros. Ela informou que o Ministério será mais rígido nas exigências técnicas dos exames e que eles deverão ser encaminhados a laboratórios credenciados.
Essa legislação começou a ser elaborada depois que uma pesquisa do próprio Ministério apontou a higiene precária das instalações e o uso inadequado de medicamentos por parte dos produtores. Também constatou falta de informações sobre o estado sanitário do rebanho, de mão-de-obra qualificada e de políticas de treinamento e de assistência técnica.
Segundo Vera Regina, a legislação pretende exigir na propriedade o cadastramento, a padronização dos parâmetros de qualidade, o controle de resíduos e doenças do rebanho. O leite deverá ser resfriado na propriedade com equipamento adequado, e a mão-de-obra, deverá ser capacitada. Da indústria, serão exigidas instalações de análise de risco e controle de pontos críticos, e do comércio, a melhoria das condições de transporte e armazenagem do produto.
ProtestoSegundo Newton Ribas, enquanto a liberação de mercado exige uma nova postura por parte dos produtores, que devem se adaptar a padrões internacionais de qualidade na produção de leite, também está provocando situações difíceis para o setor produtivo. Ele se referiu às importações de leite-em-pó da Austrália, Nova Zelândia e Alemanha, que é reidratado aqui e vendido a preços abaixo do custo de produção do leite normal. A reidratação é crime e não tem fiscais do governo para controlar essa prática, denunciou Ribas.
Segundo a APCBRH, o Brasil é o 5º produtor mundial de leite, com safra anual de 20 bilhões de litros in natura. Apesar desse desempenho, o setor está descapitalizado em consequência de importações predatórias. Nos últimos anos, o mercado brasileiro tornou-se alvo para a colocação de leite produzido em países exportadores, principalmente Argentina, competição que provocou uma crise na pecuária nacional.
As importações predatórias não ajudam em nada, porque os preços não são repassados para o consumidor. Elas servem mais para capitalizar multinacionais do setor leiteiro que entraram no País, criticou o coordenador do Seminário Internacional sobre Qualidade do Leite.


