Imagem ilustrativa da imagem Outros tempos

Era outros tempos, e esse tempo parecia demorar a passar. As rotinas de dias, meses e anos eram constantes. Nossa vida no sítio era muito trabalhosa, mas éramos felizes. Debulhar milho para as galinhas e porcos, cuidar da horta, varrer o terreiro, ordenhar as vacas entre outros deveres.

Por volta das nove horas, com o embornal dos cadernos e livros em uma mão e na outra a cesta de alimentos subíamos o carreador levando o almoço para meu pai e os manos mais velhos. Daí em diante seguíamos vários quilômetros rumo a nossa escolinha rural. Ao entardecer, no retorno à casa, novos afazeres e além disso as tarefas escolares sob a luz das lamparinas a querosene.

Vez ou outra tínhamos que torrar o café. Ah, tomávamos banho e enfrentávamos o torrador de café por muito tempo. Na pós torrada, não podíamos mais tomar banho, pois a mãe dizia que fazia mal. Dormíamos cheirando café torrado.

Ah, como demorava chegar o natal, época que nossos pais compravam um engradado de guaraná. Uma garrafa para cada um. Éramos em nove irmãos além dos pais. Fazíamos, com um prego, um furinho na tampinha para demorar mais a acabar o precioso líquido.

Lembro-me do Mano Edson, saudosista, guardava a garrafinha vazia e depois, nos dias seguintes, corria até o pasto e colhia limões-rosa para fazer a limonada e colocar na sua garrafinha. Ficava triste quando depois de muito lavar a mesma, o rótulo soltava. O tempo passou, mas até hoje mantenha a tradição e tomo uma garrafa de guaraná nos natais. Com o furinho.

Certo natal, escrevi uma cartinha para o Papai Noel, que na verdade era o gorducho seu Rodolfo dono do boteco da rodoviária, pedindo um jeep de pedalar que tinha visto na loja do seu Nassif. A espera para a noite natalina foi muito demorada. Até fiz uma “garage” para o meu jeep.

Então chegou o dia tão esperado. Em baixo do pinheirinho não tinha o meu desejado presente e sim um caminhãozinho de madeira “bonitinho”. Fiquei “feliz”! Brinquei o dia todo com o meu “bruto”, fiz uma carga bem bonita com sabugos de milho e, ao anoitecer, o coloquei na “garage” que era para o jeep.

Minha programação era madrugar para seguir a “viagem” dos sabugos de milho para a casa do Tia Edi. Mas a chuva, que meu pai tanto queria, veio pela madrugada. Ao me levantar, antes do café, fui ver o caminhão. Que tristeza! Ele era todo colado e estava todo desmontado. Chorei! Fui consolado pela Mano Tarcísio que prometeu consertar.

Tivemos uma boa safra e meu pai resolveu nos presentear com uma bicicleta Caloi. Uma para nós dois, os caçulas. Íamos para a escola, na ida levava o mano na garoupeira, pois eu era mais velho e era subida e na volta ele “dirigia”. Ah, colocamos para-pó com olho-de-gato na mesma, vendemos uns frangos que a mãe tinha nos dados e compramos um farol com um dínamo, que aliás pesava muito, pois funcionava preso na roda. Ficou bonita.

Outro natal, cada um ganhou um farolete, mas tínhamos que economizar nas pilhas, pois era as “amarelinhas” e não duravam muito. Belo presente.

O tempo passou e hoje vemos todas as facilidades, mas ainda tenho muitas saudades de minha infância.

Sidney Girotto, médico em Londrina.

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