Os segredos de quem produz cafés especiais

Produtores do Norte do Paraná driblam as dificuldades na produção e clima instável para conquistar um café alto nível

Victor Lopes - Grupo Folha
Victor Lopes - Grupo Folha

Olhar para o café paranaense é fazer um exercício de cenários paradoxais. De um lado, cafeicultores que sofrem com os preços baixos, falta de capacitação técnica e dificuldades para atingir níveis de produtividade aceitáveis. Do outro, a força do produtor em se reinventar em pequenas áreas, buscando excelência em cada saca, com colheita e pós-colheita diferenciadas para entregar o chamado café especial, “gourmetizado”, tipo exportação. Em meio a tudo isso, é preciso enfrentar ainda um clima cada vez mais instável na safra.


O concurso Café Qualidade Paraná recebeu neste ano 500 lotes de todas as regiões
O concurso Café Qualidade Paraná recebeu neste ano 500 lotes de todas as regiões | Ricardo Chicarelli - Grupo Folha
 


Apesar da cultura ainda ter muitos desafios no Estado, é nítido que a movimentação dos cafés especiais continua intensa, e não apenas entre produtores que têm bagagem de décadas no assunto. A reportagem da FOLHA conversou com produtores premiados no concurso Café Qualidade Paraná - que seleciona os melhores lotes do Estado nas categorias cereja descascado e natural.



Na entrevista, um ponto ficou claro: o envolvimento da família no processo e vontade de aprender são alicerces fundamentais para entregar um café de qualidade, mesmo que a expertise não venha de longa data. Nesta edição da FOLHA Rural, o leitor conhece histórias inspiradoras de quem faz cafés especiais e os desafios para quem ainda está longe dessa realidade. 

O Café Qualidade Paraná recebeu neste ano 500 lotes de todas as regiões. Os concorrentes disputaram nas categorias cereja descascado ou “via úmida” – em que a polpa do grão maduro é retirada para diminuir o tempo no terreiro – e natural ou “via seca”, que é a forma mais comum de processamento, em que o grão vai inteiro para secagem. 

O secretário executivo da Câmara Setorial do Café, Paulo Franzini, explica que apesar das dificuldades de produzir cafés especiais este ano - já que a safra foi instável -, foram recebidos cafés de bebida excelente. “Levamos em conta que o preço do café está muito baixo nos últimos 18 meses, o que diminui o ânimo do produtor em fazer qualidade. Por outro lado, percebemos um número crescente de produtores melhorando o nível de qualidade da produção. Não é possível todos os anos produzir um volume grande de cafés especiais, porque isso tem muito a ver com o clima, mas eles estão se capacitando e vendo a necessidade de melhorar o nível de qualidade da bebida e da produção (como um todo)”, avalia Franzini. 


ACIMA DA MÉDIA

Para o especialista, produtores de cafés especiais, “acima da média”, cresceram muito nos últimos “cinco ou seis anos”. Franzini relata que muitos já fazem negócio direto com compradores como cafeterias ou exportadores. “Os caminhos básicos para produzir café de qualidade: primeiro é a capacitação, o produtor precisa saber o que está produzindo , tem que avaliar onde está errando, e assim melhorar a colheita, a secagem e a armazenagem. Segundo é conhecer os potenciais compradores para aquele padrão de café.”


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. | Ricardo Chicarelli - Grupo Folha
 



Outro ponto interessante é que toda essa qualidade muitas vezes está intrinsecamente ligada à agricultura familiar. “Quando a família está envolvida na produção, o resultado é surpreendente, uma gratificação para fazer um café diferenciado. O que importa é a dedicação com base no conhecimento.”


SAFRA COMPLICADA

Com a colheita já finalizada, fica claro que os produtores tiveram dificuldade de produzir café nesta safra. Em janeiro, o potencial estimado pelo Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria da Agricultura era de 1,2 milhão de sacas. Por fim, no levantamento de agosto, a previsão era de 900 mil a 1 milhão de sacas. “Tivemos floradas irregulares desde o ano passado, falta de chuva, o que gerou dificuldade na hora da colheita. Houve desuniformidade na maturação (dos grãos).”

Com isso, até o concurso acabou sendo prejudicado. Se cada produtor pelo regulamento poderia entregar até cinco sacas de café, a maioria acabou entregando apenas uma. “O grão ficou mais leve, com peneira menor, um ano difícil para qualidade e para fazer volume nesse sentido.”


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