Os problemas, além da porteira
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 23 de outubro de 1998
Da Editoria 
A agricultura tem problemas dentro e fora dos limites da fazenda, ou seja, é fora do alcance do produtor rural que ocorre a maior parte dos problemas que afetam o resultado econômico-financeiro, com adversas consequências sociais.
Entre esses aspectos fora da porteira estão, no caso brasileiro, o chamado custo Brasil, como: transporte ineficiente e caro, portos inadequados, operando com custos elevados; tributação excessiva (afinal, há no País mais de 50 impostos e contribuições), juros ainda muito altos, apesar de tendência declinante nos últimos anos.
Há, entretanto, um aspecto muito importante que está fora do alcance do produtor rural, que é o mercado agrícola, perante o qual o agricultor individual é insignificante e sem qualquer poder de pressão...
Este é um trecho do prefácio da segunda edição do livro Economia Agrícola - Princípios Básicos e Aplicações, que o professor Judas Tadeu Grassi Mendes acaba de lançar com a Editora ZNT Ltda., de Curitiba.
Não faltam análises de especialistas como Judas Tadeu, um Ph.D. em Economia Agrícola e Agribusiness, ou dirigentes do setor rural, como o presidente da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), Ágide Meneguette; o secretário estadual da Agricultura, Antônio Poloni, e o presidente da Ocepar, João Paulo Koslovski, que entregaram quarta-feira, ao ministro Francisco Turra, em Brasília, o documento Propostas Emergenciais para a Agricultura.
Análises e propostas existem, para dar respaldo à safra recorde (ainda assim pequena em face das dimensões e necessidades de abastecimento do País), anunciada quarta-feira, também na Capital Federal, pelo Minisro da Agricultura e pelo presidente da Conab, o paranaense Eugênio Stefanelo.
Algumas sugestões-reivindicações precisam ser atendidas já, quando apenas uma parte da safra 98-99 foi lançada ao chão. Tem prioridade, na opinião dos produtores do Paraná, a renegociação de dívidas que estão vencendo ou para vencer.
Além disso, os produtores sugerem: 1 - Alocação de recursos para Empréstimos do Governo Federal (EGF) às cooperativas que recebem trigo. Com isso o produtor poderá estocar a safra e comercializá-la na entressafra, quando os preços tendem a ser mais remuneradores; 2 - liberação pelo Banco do Brasil, de EGF de sementes de trigo, em volume suficiente para atender a demanda, ou seja, um aumento do limite de financiamento para 100% da semente fiscalizada; 3 - que a Conab continue realizando os leilões de Prêmio para o Escoamento do Produto (PEP); 4 - agilização do Proagro, para pronta indenização dos prejuízos comprovados; 5 - prorrogação da dívida de custeio do trigo.
O Paraná é o maior produtor de trigo do Brasil (68% da produção nacional), mas a situação agravou-se na safra deste ano, devido a chuvas que causaram frustração. As perdas chegam R$100 milhões, só no trigo. Os bancos negam-se a dar crédito e produtores têm dificuldade para conseguir recursos para o plantio, segundo a denúncia. Por isso os dirigentes pedem prorrogação generalizada e imediata do pagamento da parcela da securitização das dívidas que vencem dia 30. O Paraná já toi também, durante anos, o maior produtor nacional de café e algodão. Não é mais, devido principalmente à falta de incentivo a esses produtos.
A proposta é para uma recomposição dos débitos, com prazo de pagamento de 20 anos, porque bancos estariam negando-se a atender os pedidos de financiamentos apresentados pelos agricultores nas agências bancárias, o que já havia acontecido no ano passado, por que os gerentes consideram muito altos os compromissos financeiros com as parcelas de dívidas securitizadas. Por enquanto - diz o documento entregue ao Ministro -, o governo só vem sinalizando a possibilidade de prorrogação para os produtores que comprovarem perdas por frustração de safra ou frustração de preços, dentro do que determina o Manual de Crédito Rural.
A decisão oficial sobre a prorrogação só deve sair dia 28, na reunião do Conselho Monetário Nacional (CMN) - dois dias antes do vencimento da parcela. Diante disso, a Faep está orientando aos produtores em dificuldades financeiras que solicitem por escrito, à agência bancária onde foi feito o contrato, a prorrogação do pagamento, anexando documentos que comprovem frustração de safras (laudos da assistência técnica e/ou frustração de preços, cópias de notas fiscais ou notas recebidas de venda da produção).


