Os gargalos da produção saudável
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sábado, 20 de fevereiro de 2010
Raquel de Carvalho<br> Reportagem Local 
Os benefícios de manter uma dieta livre de alimentos produzidos com produtos químicos são propalados há muito tempo. Porém, não basta a opção pelo saudável: a disponibilidade dos produtos a preços justos facilita e pode ampliar o número de consumidores dos orgânicos, seguindo tendência mundial. O mercado de orgânicos no Paraná tem bastante espaço para crescer, mas a produção nem sempre supre o desejo dos consumidores em mudar.
Problemas com crédito e logística da distribuição dos produtos são dois dos principais entraves, segundo produtores e comerciantes do setor. Na maioria das vezes, o cultivo dos orgânicos é resultado da opção que o próprio produtor faz em função da consciência dos benefícios desse consumo. ''Decidimos nos dedicar ao cultivo de frutas e à agroindústria pelo conceito da qualidade de vida, respeito ao ambiente e combate ao despedício'', sintetiza Leonardo Florêncio da Silva Filho, que ao lado da mulher, Gisele Bianchini tem uma propriedade em Marilândia do Sul (Sul de Londrina). De lá saem geleias e frutas-passas, que são distribuídas em várias regiões do País.
Leonardo e Gisele se queixam das dificuldades de crédito. Segundo ele, a concessão de financiamentos agrícolas depende de garantias irreais. ''Se peço crédito tenho que apresentar 130% do valor como garantia. Se tivesse esse montante não precisaria pedir emprestado ao banco'', critica Leonardo. Gisele acrescenta que a produção do Estado, hoje limitada a pequenas áreas, poderia ser maior se houvesse incentivo.
Opinião semelhante tem Célio Ferracioli, da Associação dos Produtores Orgânicos de Marilândia do Sul (Apomar). ''Não temos apoio, no banco não há dinheiro para produtores de orgânicos. Aqueles que produzem fumo conseguem financiamentos, mas nós, não'', diz. De acordo com Ferracioli, a falta de incentivo pode provocar a diminuição na oferta desses produtos. Alguns produtores, segundo ele, acabaram voltando para o cultivo convencional.
Ferracioli afirma que a continuidade da família na produção de orgânicos é fruto da persistência e não do incentivo. ''Há mais de dez anos decidimos que nenhum veneno ou produto químico entraria mais na propriedade'', diz. Opção perfeitamente possível, segundo ele. ''Seguimos o mandamento de 'não matar'. A vida começa a se manifestar e a natureza se defende'', filosofa. Segundo Ferracioli, os 15 agricultores associados à Apomar produzem 20 tipos de hortaliças, legumes, café, frutas e outros.
A pouca disponilidade de produtos no mercado tem ainda outro motivo, de acordo com Valdemir José Batista, gerente da Associação dos Produtores Orgânicos da Região de Londrina (Apol). ''A produção existe, mas falta uma logística entre o produtor e o consumidor'', afirma. Batista relata que a totalidade da produção de Uraí, que fica entre quatro a cinco toneladas por semana, é enviada a Curitiba, onde é classificada e embalada. ''Esses produtos voltam ao Norte do Estado com preço até 500% maior'', diz. As 4 mil sacas de soja orgânica produzidas anualmente na região são vendidas a uma empresa europeia.
Consumo
Organizar a produção e definir formas de comercialização são imperativos para superar os entraves da oferta dos orgânicos na região de Londrina, na opinião da empresária Rosana Andrade, que tem uma loja que vende exclusivamente produtos orgânicos no Mercado Shangri-lá, em Londrina. Para atender as necessidades dos clientes, Rosana é obrigada a ir semanalmente a Maringá em busca dos produtos oferecidos numa feira. Também compra de Célio Ferracioli, aproveitando a viagem que ele faz de Marilândia do Sul a Arapongas para distribuir sua produção. ''Hoje há uma carência entre 50% a 60% no setor'', calcula.
Segundo a empresária, o incremento da produção no Norte do Estado depende de ações do governo, como o acompanhamento técnico dos produtores por instituições como Emater, Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) e Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
A segunda ação é facilitar a obtenção da certificação pelos agricultores, que já vem sendo feita por um convênio entre o Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar), universidades e instituições de pesquisa. O processo, que está em fase de finalização, vai certificar 40 produtores da região.
Outra ação, de igual importância, é o incentivo ao consumo. Rosana cita o uso dos produtos na merenda escolar e a organização de feiras, como ocorre em cidades como Maringá e Região Metropolitana de Curitiba. Solução semelhante propõe o agrônono Iniberto Hanerschmidt, coordenador estadual de olericultura da Emater. Segundo ele, produtores devem organizar a produção para viabilizar a realização de feiras.
''Maringá realiza uma das principais feiras de orgânicos do Paraná. Na Região Metropolintana de Curitiba são feitas dez feiras de produtores de terça a sábado'', afirma o agrônomo, para quem os eventos divulgam o benefício dos orgânicos e estimulam o consumo. A Emater, segundo ele, tem realizado ações para viabilizar a produção no Norte (ver matéria nesta edição).


