Florindo Dalberto
OPINIÃO
Os frutos de Alcover
Não é tarefa nada fácil escrever sobre o pesquisador Milton Alcover, tamanha a grandeza das contribuições que prestou durante toda sua vida de pesquisador à agricultura paranaense e nacional. Sem o espírito científico, humanista e determinado de Alcover, provavelmente o Paraná não teria a agricultura diversificada e avançada que possui atualmente, nem poderia se orgulhar de ostentar a posição de primeiro produtor nacional de grãos.
Milton Alcover não foi apenas o responsável pelo desenvolvimento da primeira variedade de planta desenvolvida pelo Iapar – uma cultivar de trigo, denominada Mitacoré ou Iapar 1. Ou seja, a primogênita das quase 90 variedades de diferentes espécies que o instituto desenvolveu ao longo de seus quase 30 anos de existência.
Não foi apenas isto. Ele foi mestre e formou toda uma geração de pesquisadores que, como ele, também são obstinados e acreditam no potencial de produção de trigo nacional.
Para a região Norte do Paraná, que até 1975 conhecia quase exclusivamente as culturas de café e milho, Milton Alcover surgiu, mesmo diante da tragédia irreparável da histórica geada de 17 de julho, como uma tábua de salvação para o futuro econômico de toda uma região. Era ele, com voz tranquila e firme, que apresentava as alternativas para a atividade agropecuária com a substituição dos cafezais pela cultura do trigo no inverno em sucessão com a soja. Milton Alcover defendia e acreditava, com absoluta convicção, que o Brasil, especialmente o Paraná, poderia vir a ser auto-suficiente na produção de trigo. Seu discurso desafiava muitos escalões de governo da época. Mas a produção foi viabilizada com variedades genuinamente nacionais, desenvolvidas e adaptadas às condições do nosso país. E sobretudo nisso, Alcover foi um grande vencedor!
Centenas de vezes, mesmo já aposentado e concluída sua consultoria junto ao Iapar, encontrávamos o Dr. Milton nos corredores do instituto, conversando com pesquisadores e funcionários, discorrendo sobre aquilo que ele mais gostava de fazer: investigar, aprofundar conhecimentos, defender causas às vezes tão distintas da pesquisa agropecuária como a educação, a alfabetização; pesquisas de plantas alternativas, como ele mesmo as chamava; os longos artigos que escrevia, pensando publicá-los na Folha Rural. E muitos o foram, de fato!
Invariavelmente, Milton Alcover chegava manso, humilde, consultando opiniões e partilhando seus conhecimentos. Não importava a graduação do seu interlocutor. Era esse o seu jeito: carinhoso, humano, amigo, um verdadeiro sábio a quem todos podiam recorrer para solucionar dúvidas ou questionamentos.
É da presença desta figura ímpar, como ser humano e como pesquisador, que todos sentiremos falta e muita saudade aqui nos corredores do Iapar. Ele, Milton, é parte indelével da nossa e da história do próprio Iapar.
Mas, como Deus sempre sabe o que faz, podemos dizer, até mesmo com alegria, que sua lembrança estará sempre presente entre nós. Diariamente, quando nos sentarmos à mesa para o pão nosso de cada dia. E, ainda com mais força e vigor, anualmente haveremos de lembrar de Milton Alcover quando os campos de trigo estiverem germinando e frutificando em todo o Paraná. Com certeza, esta será a mais pura representação de todas as idéias e contribuições que Alcover poderia deixar para todas as gerações de paranaenses e brasileiros.
O autor é diretor-presidente do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar).

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