Os exemplos que vêm do campo
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sexta-feira, 25 de abril de 1997
Luiz Taques 
Fotos: Dorico da SilvaAntônio Barbieri arrendou a terra e não tem dinheiro para comprar novo tratorNa falta de uma política agrícola bem definida, o pequeno e o médio agricultores vão-se arranjando como podem. Antônio Barbieri, Adauto Aguilar e Darcy Gianotto que o digam. Vejam só os exemplos deles nas lidas no campo.
Antônio Barbieri tem 53 anos de idade, é pai de nove filhos e dono de nove alqueires em Sertanópolis. Mas, no final do ano passado ele cedeu em arrendamento sete alqueires do Sítio Rodovia, localizado na margem da Rodovia Celso Garcia Cid, próximo de Sertanópolis, ao lado do Rio Couro do Boi. Nos outros dois alqueires Barbieri cria sete vacas (duas são leiteiras) e planta café.
Milho x caféBarbieri diz que não é recomendável plantar milho nas ruas ao lado do café. O certo era nem plantar esse milho, pois ele judia muito do café, reconhece. Mas, acontece que se a seca for muito brava mesmo, eu colho esse milho antes do tempo e dou para as minhas vaquinhas comerem, justifica.
Aguilar diz que vai esperar melhorar a cotação, para vender a safra da soja
O café foi plantado há sete meses - o milho estava sendo plantado na sexta-feira passada. Além do sitio, das vacas, do café e do milho, Barbieri é dono de um trator 50-X. Esse trator é aquele do motorzinho pequeno e como não tenho condições de comprar um outro melhor e mais potente para preparar a terra, resolvi arrendar parte do sítio, explica Barbieri.
Os sete alqueires foram arrendados nas seguintes condições: 30% do que for colhido com a soja e 20% da safrinha de milho ou trigo vão para o bolso de Antônio Barbieri. A soja já foi colhida pelo arrendatário, mas Barbieri ainda não sabe qual o montante que vai receber. Eu vi que foram colhidos três caminhões de soja, mas não tenho idéia de quanto isso vai dar em dinheiro para mim, salienta.
Ele preferiu arrendar parte do sítio a tentar empréstimo bancário. A gente que é pequeno tem de ficar atento, pois senão perde o pouco que tem, esclarece. O trator que Antônio Barbieri pretendia comprar para arar o Sítio Rodovia custa em torno de R$ 10.000,00, segundo ele próprio apurou. Mesmo já tendo ouvido falar do Pronaf, ele não quer saber de pegar dinheiro no banco.
Pronaf é o Programa de Apoio à Agricultura Familiar e foi lançado no ano passado pelo Governo Federal. Cada agricultor pode tomar até R$ 15.000,00 emprestados. Os juros e o prazo para pagamento são considerados os mais atraentes do mercado.
Preço melhorAdauto Aguilar, 39 anos, do Sítio Boa Esperança, de 10,5 alqueires, localizado em Primeiro de Maio, diz que vai correr o risco de esperar até o segundo semestre para vender a produção da soja. Nesta safra, ele colheu 120 sacas de soja por alqueire. A área agora está ocupada pelo milho.
A soja, Adauto Aguilar já deixou de vender por R$ 16,50 a saca de 60 quilos. Tentar vender por um preço ainda melhor é a única maneira de recuperar os prejuízos que a gente vem sofrendo ao longo dos anos, afirma Aguilar. Ele sabe, no entanto, que a cotação pode variar: se for para maior, ele ganha, caso contrário é prejuízo na certa. Mas, como sorte tem quem acredita nela, Aguilar está apostando no melhor dos casos.
Ele lembra que no ano passado a sorte não andou muito ao seu lado: quando decidiu plantar o trigo, a saca estava cotada a R$ 17,00. Durante a colheita, o trigo já havia sofrido a primeira desvalorização, e a saca valia apenas R$ 10,00. Mesmo assim, Aguilar cismou em esperar a recuperação do preço.
Quando não teve mais jeito de aguentar, tive de vender por R$ 8,00 a saca, recorda. Por saca de semente de trigo, ele havia pago R$ 23,00. Para plantar um alqueire de trigo, são necessárias nove sacas de sementes.
DiversificandoDarcy Gianotto, 54 anos, dono do Sítio Ana Paula, de 17 alqueires, em Sertanópolis, apostou na diversificação para driblar a crise. Nas ruas da soja, ele plantou, em novembro do ano passado, 9.800 mudas de laranja. A primeira safra ele só vai colher daqui a dois anos.
DiversificandoDarcy Gianotto: Soja, milho e trigo deixam a gente muito preguiçoso na cidade
A soja rendeu 140 sacas por alqueire. Nesta safrinha, Gianotto plantou milho. No Sítio Ana Paula ele ainda cria 50 porcos, 30 bois e 40 mil frangos. O sítio ainda tem 1.500 pés de abacate, mil de coco-da-bahia e criação de peixe em cativeiro para ser comercializado diretamente com os pesgue-e-pague da região.
Num outro sítio - o Santo Antônio, de 11 alqueires, localizado em Primeiro de Maio, Darcy Gianoto possui outros 30 mil frangos. A meta, nas duas propriedades, é criar 100 mil frangos. Diversificar foi a maneira que ele encontrou para ganhar um pouquinho mais, colocar a família para ajudá-lo a tocar os negócios e, ainda, empregar mais gente.
Além da mulher, o filho Dárcio, um agrônomo de 31 anos, e três empregados ajudam Darcy Gianotto a cuidar das lavouras e das criações. A soja, o milho e o trigo não dão espaço para a família trabalhar, observa Gianotto. Só com a soja, o trigo ou o milho a gente passa o dia dormindo na cidade, fica preguiçoso, diz. Gianotto destinou parte da safra de soja (500 sacas), para pagar o empréstimo na cooperativa. A saca foi comercializada a R$ 15,50. Como Adauto Aguilar, do Sítio Boa Esperança, Gianotto aguarda a melhora na cotação da soja, para vender o restante da produção.


