''Exportar ou morrer''. A frase do presidente Fernando Henrique Cardoso para incentivar o aumento das exportações brasileiras nos diversos setores de produção do país pode criar a ilusão para os empresários, especialmente no setor de produção de alimentos, de que basta apenas produzir e vender. Exportar não é uma tarefa impossível mas é preciso esforço para conquistar novos mercados. Apesar da competitividade brasileira no setor de produção agrícola, os subsídios que o governo de outros países dão aos seus produtores impedem o produtor brasileiro de conquistar maior espaço.
Na última reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC) a discussão mais importante foi o subsídio, que nada mais é do que uma forma velada de protecionismo das economias mais fortes. Na opinião dos especialistas, pouco se avançou neste sentido, mas nunca o momento foi tão propício para o Brasil apostar em oportunidades no mercado externo.
Dificuldades para os pequenos
É preciso ter escala, regularidade na oferta do produto demandado, fidelidade ao comprador, qualidade e principalmente cumprir as exigências dos compradores que são muitas.
As dificuldades podem ser menores para os grandes produtores que têm mais acesso às informações do mercado externo. Além disso, os grandes produtores têm escala o que facilita a negociação. Já o pequeno produtor, que não tem escala de produção para competir e enfrenta dificuldades no próprio mercado interno, quando pensa na exportação tem um caminho árduo a percorrer.
Não é impossível
Para André Basso, consultor do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), a maior dificuldade do pequeno produtor não está na burocracia de todo o processo que ele terá que cumprir para exportar mas na identificação do seu cliente. ''Como não tem escala o pequeno produtor deve optar por nichos de mercado a fim de ofertar um produto diferenciado.''
O Sebrae pode orientar projetos. Além disso hoje existem a Agência de Promoção às Exportações (APEX), a Câmara de Comércio Exterior (Camex) e as câmaras representantes dos países importadores, o Ministério das Relações Exteriores, as embaixadas de países importadores, as empresas privadas e outras fontes onde o produtor pode conseguir informações.
Existem empresas especializadas no serviço burocrático que pode ser feito por despachantes ou tradings (empresas de comercialização). Há também a possibilidade de fazer tudo individualmente, hipótese que o consultor não aconselha porque além de produzir o agricultor terá que se envolver no processo burocrático, no contato com os compradores e pode haver dificuldade de comunicação e da distância.
''Essas empresas especializados têm toda uma estrutura com representantes no exterior que podem auxiliar o exportador. O primeiro esforço de exportação sai caro, mas depois de algum tempo o custo se dilui conforme o aumento das vendas.'' Os investimentos e custos da exportação, de acordo com André Basso, dependem do tipo de produto e do País onde será vendido.
O que pesa mais na hora de exportar
A falta de recurso financeiro, problemas de infra-estrutura operacional ou carência de tecnologia. O que pesa mais na dificuldade do pequeno produtor em exportar? Segundo a representante da Câmara de Comércio e Indústria Brasil França, Ciliane Carla Sella de Almeida, no caso do pequeno produtor as três questões interferem.
A própria Ciliane já viveu a experiência. Em 1990 ela produzia maracujá, abacate e limão. Ciliane pensou na exportação como saída para o excedente de sua produção que o mercado regional não absorvia. Além da documentação exigida pelo órgãos que controlam a venda no exterior era preciso um investimento na propriedade que não havia condições de fazer: ter mão-de-obra especializada da produção até a colheita; ter embalagens apropriadas; desenvolver um selo de qualidade; divulgar o produto; entre outros investimentos.
Na época, segundo Ciliane, não haviam órgãos como a APEX (criada em 1997) ou a CAMEX (criada em outubro desse ano), Sebrae e outros órgãos que hoje orientam e dão apoio às exportações. ''Foi preciso recorrer à empresas privadas especializadas em exportação. E isso também custava dinheiro. O jeito foi mudar de atividade. Deixou a fruticultura e apostou na pecuária. Hoje o momento é outro. Há uma disposição do governo em estimular a exportação também para o pequeno e médio empresários, mas não se deve ter a ilusão de que é tão fácil assim.''
Associações, consórcios e parcerias
Na opinião de Ciliane a exportação para pequenos e médios empresários, sejam eles agrícolas ou urbanos, só é viável a partir da formação de consórcios, associações ou cooperativas, que possam formar um fundo para bancar as despesas e investimentos necessários.
Ciliane de Almeida acredita que as iniciativas para exportação podem ser feitas regionalmente, por grupos de produtores. ''Cada região tem que procurar seu potencial e talvez no intuito de melhorar a produção para exportar teremos também a melhoria dos produtos para o mercado interno, beneficiando produtor e consumidor. Mas para que isso aconteceça o produtor, de modo geral, terá que deixar de lado o individualismo e aprender a trabalhar em conjunto.''
O extensionista Élcio Félix Rampazzo, da Emater de Londrina, que trabalha com pequenos produtores do Norte do Paraná concorda que o grande desafio para estimular o crescimento das exportações é a conscientização do produtor.
Essa conscientização deve começar primeiro para atender o mercado interno e depois expandir-se, defende o técnico. Segundo Rampazzo muitas vezes a falta de informação e de visão inibe o interesse de alguns produtores em expandirem seus horizontes, ofertando produtos diferenciados e apostando em novos mercados. ''Muitas vezes um excedente de produção em determinada região poderia ser melhor negociado numa exportação entre Estados dentro do mercado interno e isso não acontece.''

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