Duas famílias de pequenos produtores da região Norte do Paraná enfrentam problemas parecidos no que diz respeito à falta de capitalização. Resistentes, eles continuam vivendo em suas propriedades, mas garantem que a escassez de subsídios é a principal dificuldade para garantir a sobrevivência na zona rural.
Apesar dos obstáculos em comum, os dois proprietários e suas esposas possuem pontos de vista discordantes no que diz respeito a abandonar seus sítios. Elizabeth e Claudiney Caberlin, que cultivam olerícolas em Guaravera (distrito de Londrina), acreditam ser impossível sobreviver apenas com a renda da agricultura. Elizabeth já trabalha na zona urbana e se a situação não melhorar, eles devem abandonar a propriedade e mudar para Londrina (ver texto ao lado).
José Aparecido e Regina Chiquetti, de Prado Ferreira (53 km ao norte de Londrina) encaram a questão de forma diferente. Apesar das dificuldades, afirmam que moram no sítio por opção e possuem muito orgulho de produzir o alimento que comem. ‘‘Nós sabemos quais são as soluções para melhorar a renda da terra’’, afirmou Regina.‘‘Mas infelizmente, não temos recursos para colocar nossos projetos em prática.’’
Em Prado FerreiraRegina, 42 anos, e José Aparecido, 45, possuem uma propriedade de 34 hectares (ha) ocupada com culturas anuais e atividades complementares. Eles têm três filhos que também moram no Sítio São José: George, 20, Nara,15 e Jaqueline, 12. Como a mão-de-obra familiar é utilizada de forma quase exclusiva, os três ajudam os pais na lida diária.
A soja é a principal atividade. Na safra 2000/2001, o produto foi cultivado em 29,79 ha, rendendo uma produção de 1.629,22 sacas. O índice de produtividade foi de 129,99 sacas/h, com custo de R$ 382,22/ha ou R$ 6,90/saca. A colheita proporcionou à família uma margem bruta de lucros de R$ 10,64/saca e margem líquida de R$ 9,27/saca. Como cada saca foi vendida por R$ 19,00, a safra rendeu o volume total de R$15.102,87.
O dinheiro obtido terá que ser suficiente para arcar com as despesas dos próximos seis meses, o que inclui plano de saúde, faculdade do filho, roupas, sapatos, compras, manutenção das máquinas e combustível, entre outros itens. ‘‘Os investimentos na propriedade são planejados de acordo com o que sobra. Isso quando sobra alguma coisa’’, contou José Aparecido.
Ele afirmou que a agricultura se tornou uma atividade difícil porque os custos de insumos e implementos estão muito altos. ‘‘Antes, nós colhíamos 80 sacas/ha e vivíamos melhor que hoje, quando colhemos 120 sacas e raramente conseguimos guardar dinheiro para investir’’, reclamou.
FilhosRegina e José Aparecido gostariam que os filhos continuassem morando no sítio após se tornarem adultos. Por isso, estão investindo em várias atividades complementares que possam aumentar a renda da terra. ‘‘Queremos que eles tenham melhores condições de viver da agricultura. Mas só estimularemos sua permanência se eles tiverem vocação’’, avaliaram.
George, o mais velho, está fazendo faculdade de processamento de dados. Com os conhecimentos obtidos, ele já ajuda os pais a gerenciarem a propriedade, registrando no computador todas as despesas e receitas do sítio.
Há dois anos, os Chiquetti integram o programa Referências para Agricultura Familiar (Redes), desenvolvido pela Emater e que prevê a formação de um banco de dados sobre os sistemas de produção utilizados no Estado (ver reportagem na página 7). A pesquisa prevê a anotação de todos os números inerentes à produção das culturas anuais e das atividades complementares. Periodicamente, os produtores envolvidos se reúnem para compartilhar experiências.
‘‘Depois que começamos a anotar as despesas e receitas, passamos a ter mais consciência do que fazemos. A troca de informações com outros proprietários também é interessante’’, disse José.
Diversificação Entre as atividades complementares desenvolvidas, Regina considera o aviário como a mais rentável. Com um lote de 13 mil pintos, o barracão foi financiado há oito anos e tem prestações a vencer até 2004. ‘‘O aviário se paga e ainda garante alguns lucros’’.
A família Chiquetti também possui nove ha de laranja e um cafezal semi adensado de 17 mil metros quadrados, que devem começar a produzir em breve. Outra diversificação é o tanque de tilápias, que pretendem transformar em pesque e pague. Além disso, possuem uma pequena criação de porcos e ovelhas. ‘‘É bem pouco, vendemos mais durante as festas de final de ano.’’
Se tivessem capital para investir, Regina e José Aparecido gostariam de ampliar a área da propriedade e renovar o maquinário, que é antigo. Também planejam construir uma nova casa no sítio.‘‘Ainda não construímos por pressão familiar. Todos acham que deveríamos mudar para a cidade’’, ressaltou a mulher. No bairro Água da Areia, onde localiza-se o São José, existem 18 propriedades, mas apenas quatro famílias continuam residindo na zona rural.

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