Os boatos e o mercado - Jota Oliveira
Jota Oliveira
Existem diversas fontes primárias de informações de mercado, aquelas que abastecem os formadores de preços como empresas de commodities e cooperativas. Às vezes alguma organização cooperativa sai na frente e assusta a Produção; muitas vezes o susto vem do USDA, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, não raro acusado de divulgar informações capciosas, como safras superdimensionadas, para desvalorizar as safras de outros países. As próprias fontes oficiais brasileiras, como Ministério da Agricultura, Conab, IBGE e secretarias, trombam com prognósticos feitos por organizações privadas.
É comum alguma instituição ou liderança de um setor do agronegócio criticar certa previsão, acusando-a de estar a serviço de outro setor. De onde vêm as informações que o Agromercado da Folha Rural, ou o Deral, por exemplo, divulgam? Como nos demais órgãos, as estimativas e previsões são feitas por especialistas idôneos, baseados em muitas outras fontes, inclusive produtores, além de observações de campo.
Vendedores de boi gordo contestam os preços, quando os consideram baixos; compradores contestam, às vezes no mesmo dia, quando os consideram altos. O mesmo acontece em relação a outras mercadorias.
Um dos produtos mais agitados por boatos é o café. O reflexo no preço é imediato. O presidente do Sindicato Rural de Cornélio Procópio, Wilson Baggio, também diretor de Café da Federação da Agricultura do Estado do Paraná, lembra um caso recente: no final do ano passado surgiu um boato, de fonte não identificada, afirmando que o Brasil colheria neste ano (2000) 40 milhões de sacas. Os preços, que já estavam em queda, despencaram. A avaliação inicial era que o Brasil tinha potencial para produzir 40 millhões de sacas. Potencial não é o realizado nem o realizável a curto prazo; diz respeito somente às condições gerais a (terra, tecnologia, experiência, clima) existentes que podem tornar atual uma determinada situação.
Não quer dizer que o Brasil vai colher, nesta safra, 40 milhões de sacas. Nem que todas as condições existam neste momento. Elas ainda são potenciais. Aquela conversa foi um desastre; criaram uma supersafra quando o preço estava caindo, lamenta Baggio, lembrando que nos últimos anos o Brasil tem vendido cada vez mais café e ganhado menos com essas exportações: em 1997 o Brasil exportou 14.400.000 sacas, por US$ 2,75 bilhões; em 98 vendeu 16.500.000 de sacas por US$ 2,330 bilhões, e no ano passado exportou 21 milhões de sacas, por US$ 2,2 bilhões.
Este caso do retorno proporcionado pelas exportações de café é diferente, tem causas diversas, mas o efeito é também desastroso. É perda de dinheiro num momento em que toda a produção rural está descapitalizada. Mas as cotações que os jornais e revistas publicam não são boatos. São parâmetros que indicam ao lavrador, ao pecuarista, como anda o mercado em uma determinada semana, um mês, como foi em um ano e sinalizam tendências.
Boatos são coisas como a supersafra de café, desinformação que certamente desequilibra o mercado, contra o produtor, quando o que existe de fato é apenas um conjunto de fatores favoráveis a num ano futuro alcançar-se aquela produção. Este é o boato: uma mentira intencional ou consequência da má-interpretação dos fatos. Como se alguém dissesse, na Europa por exemplo, que um país grande exportador de carne tem uma epidemia de aftosa, ou que ali só se produz soja transgênica...
O autor é editor da Folha Rural.





