Os benefícios que vêm do campo são bem maiores
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2004
Reportagem Local 
A agropecuária e, ainda mais, o agronegócio, que engloba as atividades antes da porteira, dentro da porteira e após a porteira das fazendas - foi quem segurou a economia brasileira em 2003. O aumento do PIB agrícola foi da ordem de 4% a 5% no ano passado.
Mas a contribuição do PIB agropecuário para o PIB do País é bem maior. Ou seja a economia agropecuária tem um peso e uma contribuição maiores na economia como um todo. Não é apenas no Brasil. Também no caso da Argentina e Estados Unidos, o setor agrícola contribui mais do que os dados oficiais mostram. É uma questão de cálculo.
Técnicos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) estão afirmando: os cálculos estão errados; se adotados critérios corretos, esses países vão ver que a agropecuária tem uma importância econômica maior na vida dos países. O BID propõe corrigir os cálculos.
No caso do Brasil, resta saber se interessa ao governo mostrar que a participação da agropecuária na riqueza do País - e os benefícios que transfere à sociedade - são ainda maiores. Afinal, o que se observa, hoje, é um esforço velado para desestimular (às vezes desprestigiar) os proprietários rurais, apesar dos evidentes progressos no campo, como: qualidade dos alimentos, tecnologia e produtividade para redução do preço da comida; superávit comercial, oferta de trabalho, rápida distribuição de renda, etc.
Esforço subestimado - Mas, vejamos ao que diz o BID, citado estudos do IICA - Instituto Interamericano para a Cooperação na Agricultura. Segundo seus técnicos, até agora o verdadeiro peso da agricultura na economia de um país tem sido subestimado mais do que se possa imaginar por causa de cálculos tradicionais que não deveriam mais ser utilizados. Afirma o BID: ''Chegou a hora de calcular a real contribuição do setor no Produto Interno Bruto (PIB) de uma nação''.
De acordo com recente estudo encomendado pelo Grupo Interagência para o Desenvolvimento Rural da América Latina e o Caribe, os cálculos tradicionais levam em conta apenas as vendas de matéria-prima, principalmente cultura e gado, deixando de lado as cadeias de produção geradas na agroindústria, no comércio e no setor de serviços, assim como o valor adicional que esses setores agregam ao PIB.
O estudo, conduzido pelo IICA, propõe um novo indicador, mais amplo, para valorizar o peso que a agricultura realmente tem na economia de um país.
Por esse novo indicador, que sugere que a agricultura e as atividades econômicas que ela gera contribuem muito mais do que se imagina, o PIB agrícola no Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, Canadá, Costa Rica, México, Peru, Estados Unidos, Uruguai e Venezuela seria muito maior do que é na atualidade.
No Brasil, por exemplo, o estudo mostra que a contribuição da agricultura no PIB do País passaria de meros 4,3% para 26,2%. Na Argentina, de 4,6% para 32,2% do PIB e, no Chile, de 5,6% para 32,1%, enquanto que no México de 4,6% para 24,5%. No caso da Costa Rica, diz o estudo coordenado pelo Iica, o impacto geral da agricultura no PIB triplicaria e, nos EUA, seria de 11,6 vezes mais do estimado atualmente.
Nos países desenvolvidos, os saltos não são tão significativos, mas a tendência é a mesma. Nos EUA, explica o organismo multilateral de financiamento, ''a contribuição atual da agricultura não passa de 0,7% do PIB, quando se leva em conta a agricultura primária, mas essa contribuição aumenta para 8,1% ao levar em conta as cadeias produtivas relacionadas''.
No âmbito regional, a agricultura primária representa 8% do PIB latino-americano. Mas o chefe da Unidade Rural do Departamento de Desenvolvimento Sustentável do BID, Rubén Echeverría, afirma que a agricultura ampliada constitui cerca de 30% do PIB regional. E mais, acrescenta o funcionário do BID, ''a agricultura ampliada significa mais de 40% do total das exportações da região''.
Distribuição de renda - O novo estudo demonstra que os métodos tradicionais utilizados para calcular o peso real do setor vem subestimando o papel-chave que a agricultura representa, em qualquer escala, grande, média ou módulos familiares.
Mas a questão não pára por aí. Para conseguir um cálculo exato da contribuição da agricultura é necessário levar em conta os efeitos na distribuição de renda nas famílias rurais e urbanas, nos trabalhadores e nos proprietários. ''Isso é essencial para avaliar o impacto das estratégias contra a redução da pobreza, principalmente nas zonas rurais'', afirma o BID no estudo.
Para o banco, esse ''descobrimento'' permitiria antecipar um aumento dos investimentos na agricultura, pelo menos enquanto se definem leis que adotem de maneira mais eficiente o desenvolvimento econômico e social.


