Orgânicos pulam cerca da horta
Jota Oliveira
De Londrina
Na semana passada, durante exposição nacional de produtos orgânicos em São Paulo, o novo perfil da agricultura sem veneno pôde ser confirmado, pela presença de produtores de arroz irrigado e de cana sem agrotóxicos. Esta realidade foi constatada, entre outros, pelo engenheiro-agrônomo Carlos Armênio Khatounian, pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar).
Especialista em agricultura orgânica, Carlos Armênio destaca, daquela exposição, a presença de uma firma que cultiva milhares de hectares de arroz irrigado em Santa Catarina e duas usinas paulistas que exploram de 11 mil a 12 mil hectares de cana-de-açúcar orgânica.
Novo perfilDo novo perfil da agricultura orgânica que está se desenhando no Brasi, o pesquisador do Iapar ressalta ainda a produção animal e o surgimento de comerciantes de produtos orgânicos no atacado. Eles funcionam como pontes entre pequenos produtores e o mercado, criando estruturas de recebimento, embalagem e distriguição de alimentos orgânicos, que têm nos supermercados seus principais pontos de venda, além das feiras especializadas existentes na Capital paulista.
O credenciamento de novos produtores de alimentos sem venenos cresce cerca de 10% ao mês, segundo fonte da Associação de Agricultura Orgânica (A.A.O.), de São Paulo. Está um negócio explosivo, avalia Carlos Armênio. Ele percebe esse interesse crescente também no Iapar, onde tem recebido muitas consultas de empresas interessadas em agricultura orgânica.
Além disso estão surgindo novas linhas de produtos. Há dez anos era só quase hortaliça. Agora a produção orgânica expande-se para cana, grãos, leite, queijo e ovos. Mas, a produção animal ainda é incipiente, comenta o pesquisador. Khatounian ressalva que ainda predominam as hortaliças, seguidas pelos grãos. Além disso, pesquisa feita em São Paulo, para caracterizar o consumidor de produtos orgânicos, revela que a maioria deles não aboliram a carne vermelha. Esta, observa Armênio,é uma nova oportunidade de mercado.
PesquisaA pesquisa em busca do perfil do consumidor de orgânicos foi feita em São Paulo, capital, pelo engenheiro-agrônomo Ricardo Cerveira, e revela, entre outras constatações, que uma elite intelectual (mais de 50% têm curso superior) e econômica tem acesso ao consumo de alimentos orgânicos naquela capital; a maioria dos consumidores são mulheres. Além de se afastar, devido aos preços mais altos, a população mais pobre e menos informada não conhece os benefícios dos produtos naturais.
Outras características do consumidor paulistano de produtos orgânicos, reveladas pela pesquisa: a maioria dos consumidores são profissionais liberais de classe média, como advogados e médicos; residem na zona urbana; têm idade média de 31 a 50 anos; em sua maioria são casados; têm baixa participação em organizações não-Governamentais (ONGs); boa parte mantém-se fiel ao consumo de carne vermelha (não são, como pode parecer à primeira vistaa, macrobióticos e não têm hábitos alimentares exóticos à cultura brasileirea) e frequentam as feiras orgânicas de seus bairros.
CréditoNo dia 1º deste mês, no Parque da Água Branca, em São Paulo, onde funciona a sede da A.A.O., o Banco do Brasil lançou o BB Produtos Orgânicos, uma linha de crédito para os produtores de alimentos sem venenos. Funciona na base do Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf), com limites de R$500,00 a R$5.000,00 por safra, para custeio, juros de 5,7% ao ano e prazo de dois anos para resgate.
Para investimentos, os valores variam conforme a destinação dos recursos, mas os limites variam acima de R$500,00, cobrando juros de 1% ao ano e reembolso em cinco anos. Todos os créditos podem ser coletivos ou pessoais, caso em que os interessados vão ao banco e negociam com o gerente.
Na opinião do pesquisador do Iapar, Armênio Carlos Khatounian, um dos introdutores da agricultura orgânica em Londrina, a linha de crédito do Banco do Brasil para o setor, acenou com interesse; que o banco estava aberto a sugestões. É uma situação nova e ali estava (o banco) chamando as organizações para dar sugestões, o que já é um avanço, acrescentou.
Uma dificuldade, na opinião de Armênio, será agora separar os verdadeiros dos falsos produtores orgânicos; definir aqueles que estão dispostos mesmo a entrar na atividade, daqueles que desejam apenas tomar dinheiro do governo.
Em Botucatu, SP, Manfred Osterroh, diretor do Instituto Biodinâmico, diz que o crédito vem em boa hora, porque reafirma parceria entre as instituições que já estavam muito próximas, e a produção enfrenta dificuldades devido à falta de recursos.





