A ordenha dos animais é a tarefa mais importante da pecuária leiteira. É o momento da colheita da produção, quando é possível avaliar os resultados de todos os investimentos realizados na propriedade em genética, nutrição, fornecimento de volumosos de qualidade, pastagens, manejo do rebanho, instalações, mão-de-obra, assistência técnica, entre outros. Portanto, deve ser muito bem realizada, para não alterar os resultados esperados. Qualquer coisa que se faça de errado no processo vai interferir na produção dos animais.
A ordenhadeira mecânica é a ferramenta essencial para realização deste trabalho de maneira adequada e higiênica. É um dos equipamentos mais utilizados em uma propriedade de produção de leite. Duas ou três vezes por dia nos 365 dias do ano. É um equipamento que merece uma atenção muito especial do produtor. Hoje, no entanto, o que acontece está longe desta necessidade.
Há, em algumas propriedades, a falta de manejo adequado do equipamento pela falta de conhecimento sobre o que é e como funciona uma ordenhadeira mecânica. Existe também o descaso e a falta de capricho no uso da máquina. Nem sempre o produtor é o culpado deste quadro.
Nos centros de pesquisa e universidades do País existem poucos trabalhos na área de orientação sobre o uso correto, higiene e manutenção dos equipamentos de ordenha. A grande maioria dos técnicos (veterinários, agrônomos, zootecnistas e técnicos agrícolas) saem das universidades ou escolas técnicas profissionalizantes, desconhecendo noções básicas sobre o assunto. Na realidade o aprendizado, na maioria das vezes deficiente na escola, tem seu reflexo, depois, no campo.
Aproveitando-se desse quadro, algumas empresas de equipamentos acabam vendendo máquinas fora de padrões técnicos internacionais, inviabilizando, em alguns casos, a atividade leiteira nas propriedades e até mesmo prejudicando a imagem do equipamento de ordenha. O produtor fica desacreditado da atividade e não investe mais no seu negócio, ou ainda desiste da produção de leite, pelos prejuízos que um equipamento fora de padrão pode causar.
Um dos maiores problemas no dimensionamento de uma ordenhadeira mecânica está no tamanho da bomba de vácuo. O vácuo é responsável pela extração do leite. Na falta de vácuo adequado para extrair todo o leite do úbere, acontece o que pode ser chamado de leite residual. Ou seja, nem todo o leite que está no úbere é retirado. Mesmo uma pequena sobra de leite no úbere poderá causar mastite na vaca.
Muitas empresas, tentando obter preços melhores e mais atrativos aos produtores, acabam reduzindo o tamanho das bombas, infringindo normas técnicas. Mais tarde, quando aparecerem os problemas, tanto o produtor quanto o técnico que o assiste, por falta de conhecimentos, não conseguem identificar suas origens e na realidade a culpa é da máquina. A consequência é que o nome de empresas idôneas, que trabalham dentro dos padrões, acaba sendo prejudicado, fazendo com que o produtor não acredite e nem faça o investimento na máquina de ordenha correta para a sua realidade.
O uso incorreto ou mal dimensionado de um equipamento de ordenha poderá trazer sérios prejuízos ao produtor. Um dos maiores medos, por exemplo, é ter casos de mastite no rebanho. A doença causa prejuízos econômicos e transtornos na propriedade. Uma das maneiras de evitá-la é usar corretamente o equipamento de ordenha. Em função do uso e dimensionamento inadequado das ordenhadeiras, alguns rebanhos podem somar índices de 70% a 80% de casos de mastite. Uma vaca com mastite, segundo estudos feitos nos Estados Unidos, representa perda de US$200/vaca/ano.
Há perda também na indústria, porque o leite mastítico tem baixo rendimento na produção de derivados, baixo teor de proteína, gordura e lactose. Outra desvantagem é que derivados produzidos a partir de leite mastítico têm menor tempo de prateleira.
Existem entidades internacionais responsáveis pelo estudo e determinação de padrões mínimos relativos à montagem e ao funcionamento de sistemas de ordenha. Essas normas internacionais para produção de um equipamento determinam tecnicamente como deve funcionar cada item que compõe uma ordenhadeira e qual o dimensionamento correto dos mesmos.
O principal objetivo dessas normas é conseguir uma perfeita harmonia entre máquina e animal, visando uma ordenha completa, sanidade do úbere e alta qualidade do leite produzido. Da elaboração dessas normas participam produtores, instituições de pesquisa e fabricantes.
As duas normas mais importantes no mundo são as ISO (International Standart Organization) européias, utilizadas principalmente pelas fábricas localizadas na Europa; e as normas ASAE, usadas pelos fabricantes dos Estados Unidos. A Argentina também já tem a sua própria norma - Norma IRAM.
No Brasil, como existe pouca pesquisa nessa área, não há uma norma técnica específica. Portanto, seria lógico e ético que qualquer empresa fabricante no País trabalhasse com uma dessas normas já citadas. Mas, na realidade, muitas vezes, isso não acontece. Algumas empresas acabam colocando no mercado nacional produtos fora de especificações técnicas, gerando grandes prejuízos ao rebanho leiteiro nacional e, consequentemente, ao produtor brasileiro.
Esse quadro precisa ser revertido. Hoje quem paga a conta é o produtor de leite, muitas vezes com seu negócio inviabilizado ou desacreditado na produção leiteira. Uma sugestão, para sanar o problema, seria implantar um serviço de fiscalização na fabricação e instalação dos equipamentos de ordenha e exigir das empresa padrões nacionais mínimos. Esse serviço poderia partir de um órgão do Governo, vinculado ao Ministério da Agricultura e do Abastecimento. Como o número de fabricantes é relativamente pequeno, a fiscalização não seria difícil em termos práticos e econômicos. Outra solução está na formação de técnicos especializados, treinados para essa área, que possam, no campo, acompanhar e assessorar melhor o produtor.
O autor é médico-veterinário e consultor técnico da área de equipamentos da Bosio Ordenhadeiras Ltda.

mockup