Sobressaltos da agricultura

O Brasil se prepara para plantar uma nova safra recorde com alguns sobressaltos. O mais importante deles diz respeito aos preços que devem vigorar no ano que vem, em razão da sobrevalorização da nossa moeda, sem que o governo federal faça qualquer menção de mudar a sua política de aparente não intervenção no câmbio.
A queixa de que o governo deixa fluir para o mercado livremente as suas reservas em dólares, e com isso proporciona a sobrevalorização do real, não é apenas do agronegócio, mas das empresas exportadoras em geral. A falta de uma posição mais firme de apoio às exportações é intrigante, já que o País tem no setor exportador a sua alavanca para voltar a crescer.
Há um certo exagero na receita para conter a inflação e a prova é que já há deflação, consequência da estagnação da economia. Se não há como sair do atoleiro em que estamos puxando-nos pelos cabelos, a solução é o mercado externo, onde o agronegócio já provou que é competente.
Nos últimos anos, o agronegócio tem proporcionado saldos líquidos positivos na balança comercial acima de US$ 20 bilhões. Como o saldo total da balança é de US$ 11 bilhões, significa que é o agronegócio que está sustentando este País.
Mas para continuar a sustentar nossas contas externas, que se forem deficitárias vão provocar uma grande crise econômica e social, os produtores rurais e industriais do agronegócio precisam ter preços compensadores para seu esforço. Quanto melhor a relação dólar/real, maior é o resultado do nosso comércio, como ficou provado a partir de 1999 quando o governo federal foi obrigado a deixar o câmbio flutuar.
Pode parecer que isso diga respeito apenas àqueles produtos destinados ao mercado externo. Contudo, os preços dos produtos do mercado interno também são afetados pelas cotações internacionais e são alterados, para cima ou para baixo, dependendo do aumento ou da redução da renda dos consumidores brasileiros, que por sua vez é consequência do comportamento da economia. Desta forma, os produtores têm razão em se preocuparem com a política cambial e pedir que a intervenção se faça para desvalorizar o real.
Outro aspecto negativo na safra que vai ser plantada são os preços dos insumos, que tiveram uma alta acima da inflação e da valorização cambial e que até agora não baixaram. Em um ano, para uma inflação de 17,7% e um aumento do dólar de 34,4%, os preços dos fertilizantes cresceram 60% em média; a uréia 82%, o óleo diesel 62%; as colheitadeiras mais de 60%, os tratores mais de 45%. Baixou o dólar, mas a queda dos preços desses insumos e equipamentos não foi proporcional.
A produção agropecuária tem tido aumentos espetaculares estes últimos anos, mas a infra-estrutura para seu escoamento continua a mesma de 15 anos atrás, apenas mais deteriorada. Se o agronegócio é tão importante para o País, estranha-se que o governo não faça investimentos para melhorar nossas rodovias, ferrovias e portos, no limite do congestionamento. E para isso possui recursos da Cide, uma contribuição recolhida na compra de combustíveis e com a destinação legal para recuperação e melhoria da infra-estrutura, mas que tem sido carreada para o caixa da União.
Finalmente, o sobressalto das invasões de propriedades sem que os governos estadual e federal ajam com firmeza. O desrespeito à lei nas barbas das autoridades é um convite ao Movimento Sem-Terra para continuar achincalhando a sociedade brasileira.
O que o produtor espera neste seu dia é que a ordem seja mantida, que as políticas cambial, monetária e de crédito sejam apoio ao desenvolvimento e ao aumento da renda do povo brasileiro. Que seja estabelecido um ambiente de incentivo à produção sem o medo de que, no futuro, os preços despenquem, os custos subam, a produção não flua e que as propriedades sejam alvo da violência dos invasores.

Ágide Meneguette é engenheiro agrônomo e presidente da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (FAEP)

mockup