OPINIÃO DO LEITOR
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 16 de maio de 2003
Constantino Ajimasto Jr.* 
Uma das maiores indústrias de couro do País, a Braspelco, está oferecendo ao produtor até 8% a mais pelo couro sem marca a fogo. A iniciativa, inédita, abre caminho para impulsionar um segmento pouco valorizado na cadeia da pecuária e que, por isso mesmo, deixa de proporcionar ao Brasil até US$ 5 bilhões por ano em exportações e de gerar pelo menos 400 mil postos de trabalhos no campo.
O couro e seus subprodutos representam atualmente em torno de US$ 2,5 bilhões/ano em exportações. É um número considerável, mas bem abaixo das possibilidades reais do mercado. Um exemplo: há 15 anos, o Brasil exportava mais couros do que a China. Hoje, eles vendem nada menos do que US$ 11,5 bilhões/ano. Ou seja, 4,6 vezes a mais que nós.
Onde está o problema? Bom, eu diria que há vários. Um deles está relacionado a uma política tributária pouco compreensível, que incentiva a exportação de couro em estágios primários (wet blue), com benefícios fiscais, e penaliza a exportação de produtos acabados e manufaturados, com impostos. Isso proporciona situações inusitadas, como a exportação de couro wet blue pelos curtumes a US$ 31,50/unidade, enquanto eles compram o couro verde dos frigoríficos a US$ 32!
A iniciativa de pagamento pela qualidade do couro diretamente ao pecuarista pode motivar o primeiro elo da cadeia produtiva a tomar certos cuidados durante a criação do animal, evitando que o couro sofra danos irreversíveis. Com isso, pode aumentar a oferta de couros de qualidade, proporcionando benefícios a todos os elos envolvidos: produtor, frigorífico e curtume.
Na verdade, há poucos exemplos de campanhas sérias de esclarecimento ao criador sobre a obtenção do couro de qualidade. Além disso, não há uma política clara de remuneração. Em outras palavras, o pecuarista não sabe exatamente como lidar com o couro e não se interessa em saber porque não recebe nada por ele.
É preciso ficar claro que o Brasil não conseguirá participar mais ativamente do comércio mundial de couros, seja wet blue ou acabado, se o pecuarista não estiver corretamente envolvido. Apenas com boa informação ele poderá ampliar a oferta de couro de qualidade, sem marcas a fogo ou de acidentes. Mas é preciso que todos os envolvidos pensem coletivamente, agregando valor ao produto.
Já está em estudo no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento o novo Programa Nacional do Novilho Precoce. O couro está envolvido no programa e vai merecer atenção especial do comitê envolvendo pecuaristas, entidades de classe, frigoríficos, curtumes e governo. Sim, é preciso valorizar a produção de carne de qualidade, originária do animal de boa genética e bem alimentado, que vai ao abate com no máximo 24 meses de idade. Mas não se pode deixar de lado um segmento tão importante como o couro. Afinal, além de milhares de empregos no campo a criar, há um tremendo potencial de negócios para o Brasil. Por isso ele merece toda nossa atenção.
(*) Constantino Ajimasto Jr. é presidente da Associação Brasileira do Novilho Precoce.


