A cafeicultura brasileira vive a maior crise da história, e não é apenas mercadológica.
Há muitos anos não tínhamos um instrumento legal que pudesse regulamentar o mercado físico através da qualidade do café. A instrução normativa nº 08 do MAPA foi um passo importantíssimo, que aliado à rotulação do café ao consumidor, seria o ponto de virada do mercado, retirando grande parcela de café fora de tipo, imprestável, do consumo doméstico.
Surpreendentemente o Ministério da Agricultura volta atrás e diz que a instrução só é válida para os cafés do governo que serão adquiridos através dos leilões de opções. Surpreendentemente isto ocorre dois dias após veemente protesto do setor exportador. Surpreendentemente não houve qualquer empenho da indústria em defender a medida, que melhoraria automaticamente seus produtos.
Surpreendentemente a liderança nacional da cafeicultura em nenhum momento desde a edição da medida se manifestou, num silêncio sepulcral inexplicável. Surpreendentemente todos estes setores estiveram representados na última reunião da OIC (Organização Internacional do Café) em Londres e reiteraram seu apoio a resolução 407 desta entidade, que é muito mais rigorosa que a instrução nº08 do Ministério da Agricultura.
Não surpreendentemente a resolução 407 nunca entrou em vigor, pois naturalmente não há instrumento legal para a mesma ser obedecida e talvez por isso todos a apóiem.
A OIC é mais uma entidade internacional que serve apenas à globalização que se rende às leis do comércio e esmaga culturas nacionais.
Como dizia o sociólogo francês Pierre Bourdier: ''mesmo durante o capitalismo selvagem havia limites. Agora, caminha-se para o capitalismo ilimitado, introduzem formas de gerenciamento antes inimagináveis. É a lógica do lucro sem limites''.
Com a não obrigação da instrução nº08 ser seguida pela iniciativa privada há um reconhecimento tácito, explícito de que a indústria brasileira torra café de péssima qualidade, que é impingido ao consumidor.
Repito todo café adquirido junto aos cafeicultores é tipado, classificado, e só é pago a estes o café que realmente tem qualidade. A indústria e o setor exportador se beneficiam dos resíduos que são comercializados e torrados substituindo café de qualidade, trazendo enormes prejuízos aos cafeicultores.
A situação na zona cafeeira é dramática e as medidas do governo são paleativas, inócuas e conjunturais.
Nos tornamos pedintes do Governo Federal que nos ludibria dia após dia. Reiteramos que não será com medidas artificiais que se resolverão todos os problemas da cafeicultura. Contra o mercado ninguém pode, o mercado é implacável, a lei da oferta e procura é insubstituível.
As soluções só serão encontradas em planos estruturais para normatizarmos e ordenarmos a comercialização e o consumo de café, e isto passa pela qualidade.
Temos que ser respeitados. Não podemos continuar a ser o instrumento do lucro dos outros. Com tudo insto a ABCA (Associação Brasileira de Café Arábica) é uma necessidade imprescindível.
Voltar atrás na instrução normativa nº08 nada mais é do que uma vergonha de um sistema que não sabe ser fiel a si mesmo.


Ricardo Gonçalves Strenger é presidente da Associação Paranaense de Cafeicultores (Apac)

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