OPINIÃO DO LEITOR - Soja: o produtor perde
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sexta-feira, 15 de outubro de 2004
Ágide Meneguette* 
Soja: o produtor perde
Há meses a FAEP vem alertando os produtores que o bom momento da soja estava acabando em face dos prognósticos de uma grande safra norte-americana, além do aumento da produção na Argentina e Brasil. Os preços futuros apontam para uma redução, voltando à normalidade, depois de haverem subido para até R$ 52 a saca. Segundo o último relatório do Departamento de Agricultura dos EUA, a previsão de 77 milhões de t saltou para quase 85 milhões. A abundância da próxima safra mundial e a possível retração do mercado, especialmente da China, fizeram os preços despencarem para os atuais R$ 33 a saca e, para o futuro, previsão de R$ 30 em plena colheita no primeiro semestre do próximo ano.
Se aos preços correspondessem aos custos de produção normais não se poderia classificar a situação como desesperadora. Mas os custos subiram desproporcionalmente: fertilizantes, 24%; defensivos, 15% e o transporte - em razão da alta do petróleo - em 30%.
Segundo do Deral, o custo operacional deverá superar os R$ 26 a saca, deixando margem reduzida ao produtor. Esse custo pode ser ainda maior com a ocorrência da ''ferrugem'', com aplicações adicionais de defensivos. Ou pode sofrer problemas climáticos.
Não há como fugir dessa situação uma vez que o produtor maneja apenas uma das variáveis da equação: a sua produção. Não comanda o mercado e não pode influir na fixação de preços. Não pode, também, influir nos custos fora da porteira.
Mas não vejo esse quadro como um destino inexorável. O percentual de rendimento vai ser baixo, mas não precisa ser tão baixo. Há sim, solução, mas esta depende de uma ação rápida dos governos estadual e federal. E não apenas para a soja, mas para todos os produtos da agropecuária. Eles são, em geral, commodities, e por isso o ganho do produtor deve ser calculado a partir de um preço Cif, isto é, do produto colocado no ponto de destino. A partir deste preço Cif deduz-se os custos incidentes na venda: lucro do intermediário, impostos diretos e indiretos, fretes terrestres, pedágios, armazenagem, seguros de transporte e taxas portuárias.
Tirar da lavoura e colocar no porto custa nos EUA 8,7% do valor da soja, na Argentina, 10,26%. E no Brasil, 23%. Por aí fica fácil verificar as desvantagens dos nossos produtores. É bem verdade que nos EUA usa-se largamente o transporte hidroviário. Mesmo assim a diferença é brutal porque os custos de transporte e de tarifas são altíssimos.
É aqui que os produtores podem minimizar os efeitos de preços baixos e custos altos. No transporte é possível reduzir a diferença e aumentar a rentabilidade, tornando nossos produtos competitivos no mercado externo e mais baratos para o consumidor brasileiro. Rodovias sucateadas, pedágios escorchantes, e portos e ferrovias ineficientes são a causa deste prejuízo ao produtor.
No mês passado, critiquei a decisão do governo de aumentar o superávit primário destinado ao pagamento de nossa dívida ao invés de usar o excedente de receita fiscal em obras urgentes para manter o fluxo de exportações do agronegócio que, afinal de contas, estão mantendo este país de pé. O Governo Federal arrecadou mais de R$ 18 bilhões da CIDE, que se destinam por lei a obras de infra-estrutura, mas está entesourando este recurso para aumentar o superávit primário.
Rodovias em melhores condições, portos eficientes, ferrovias com participação maior no transporte de commodities são as variáveis que o governo pode usar para proporcionar uma renda compatível com os riscos dos produtores rurais, especialmente nos próximos anos de preços baixos. E não apenas para o agronegócio, mas para o desenvolvimento do país. A nova safra começa a ser colhida em fevereiro do próximo ano. A ação dos governos é, portanto, urgente.
* Presidente da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep).


