OPINIÃO DO LEITOR - Segurança alimentar: o risco dos resíduos químicos
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 12 de setembro de 2003
Por Dean Howes 
Você correria o risco de oferecer para sua família produtos que pudessem conter resíduos químicos de antibióticos? Provavelmente não! Pois é exatamente a preocupação com esse risco que fundamenta o banimento de antibióticos promotores de crescimento na alimentação animal em curso na União Européia. Até 2006, os últimos quatro produtos ainda permitidos na UE serão definitivamente proibidos. O movimento lá ganhou impulso por pressão dos consumidores, que conseguiram convencer as autoridades de que era preciso dar um basta na utilização desses insumos na produção animal.
A discussão sobre o banimento de antibióticos promotores de crescimento na nutrição de animais não é um processo recente. Desde 1991, por exemplo, os chamados ionóforos são proibidos na UE para utilização na pecuária leiteira e a partir de 2006 não poderão ser utilizados na pecuária de corte. A mesma classe de antibióticos está proibida para uso em vacas leiteiras nos Estados Unidos.
Mas, afinal, o que são os ionóforos? Trata-se de uma classe específica de antibiótico utilizado como promotores de crescimento em ruminantes (bovinos, especialmente). Sua ação deprime ou inibe o crescimento de microorganismos do rúmen, o que aumenta a eficiência produtiva dos animais, resultante da maior retenção de energia durante a fermentação ruminal. O problema está no fato de que alguns desses microorganismos, como as bactérias fibrolíticas - que ajudam a digerir as fibras auxiliando na digestão dos animais - são destruídas pelos ionóforos.
O Brasil ainda não restringe a utilização de ionóforos na pecuária leiteira ou de corte. Mas é hora de começar a pensar seriamente no assunto, pois ainda que não participe do comércio internacional de leite é um importante exportador de carne bovina.
A comprovação é científica. Apesar de os ionóforos ser utilizados em baixas dosagens, a administração contínua nas vacas ou gado de corte deixa resíduos no leite. O que isso significa? Que há possibilidade de resistência a antibióticos usados na saúde humana, principalmente em crianças, maiores consumidores das proteínas do leite e que ainda estão desenvolvendo seu sistema imunológico. Na carne bovina, o acúmulo de resíduos durante anos pode proporcionar resistência de determinadas bactérias no organismo humano.
E, por outro lado, considerando apenas os riscos à saúde humana, são pequenas as vantagens do uso desses antibióticos promotores de crescimento. Atualmente, existem alternativas naturais como o uso de leveduras vivas de cepas selecionadas especialmente para exercer o mesmo papel dos ionóforos, estimulando o crescimento das bactérias fibrolíticas e utilizadoras de ácido lático que reduzem a acidez do rúmen e proporcionam maior eficiência da produção. Além disso, não trazem conseqüências negativas aos consumidores do produto final, pois não deixam resíduo na carne ou no leite.
* O norte-americano Dean Howes é consultor internacional e diretor técnico da Alltech nos Estados Unidos. Ph.D. em Nutrição pela Washington State University, foi Professor de Nutrição de Ruminantes nas Universidades de Alberta (Canadá) e Idaho (EUA). Howes esteve no Brasil visitando propriedades leiteiras e fazendo palestras em instituições de ensino.


