OPINIÃO DO LEITOR - Parceiros chineses
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 11 de junho de 2004
* Luiz Lourenço 
Por ocasião da visita oficial do governo à China, acompanhado de uma delegação de empresários, aquele país de dimensões continentais, cuja economia passa por rápido processo de crescimento, mereceu notório e até certo ponto exagerado destaque na mídia nacional, a ponto de se pensar que o Brasil tivesse, a partir daquele momento, escancarado um corredor para a exportação de quase tudo.
Com 20% da população e somente 9% das terras agricultáveis do planeta, a China é um país que precisa de quase tudo e tem apetite voraz para comprar. Na mesma velocidade com que arranha-céus são erguidos em megalópoles como Beijing e Xangai, milhões de chineses - mais de 2/3 deles ainda vivendo no campo - migram para as cidades, pressionando a demanda por alimentos.
Aumenta não só a necessidade por alimentos, mas gêneros de toda ordem para atender a uma população que, sem perda de tempo, vai descobrindo os prazeres do consumo. Só para ficar em alguns exemplos, 327 em cada mil chineses possuem telefone celular (contra 423 da média brasileira), e só 27,6 em cada mil têm computador (no Brasil são 74,8). Para dar mais uma idéia da colossal dimensão desse mercado, basta citar que os chineses respondem por 50% do cimento consumido no mundo, 31% do carvão, 30% do minério de ferro, 25% do alumínio, 22% do aço e 7% do petróleo.
Mas quem sonha com as oportunidades que despontam naquele mercado precisa estar preparado e avançar com os pés bem firmes no chão. A China não é para ingênuos e muito menos para amadores. Trata-se de um país cujas importações baseiam-se em matérias-primas, em produtos não-acabados. Com uma população de 1,3 bilhão de almas - que pode chegar a 1,5 bilhão - o governo chinês precisa incentivar a indústria local para garantir o maior número de empregos. Por isso, em vez de comprar óleo e farelo de soja, como fazem os europeus, prefere o produto em grão, ocorrendo o mesmo com outros itens.
Para o Brasil, sem dúvida, seria muito mais negócio vender produtos com maior valor agregado, mas o problema é a forte taxação chinesa. Por outro lado, quem quiser vender àquele país deve levar em conta, também, que os chineses só se interessam por grandes volumes, o que não é desafio simples para quem se dispõe a atender todas as exigências em matéria de qualidade e regularidade de fornecimento.
Ainda há muitos obstáculos a superar para que Brasil e China comecem a interagir, comercialmente, com fluidez. Por enquanto, somos grandes fornecedores de madeira, minério de ferro e soja. Em poucos anos, certamente estaremos vendendo, também, muito algodão. Embora empreendedores brasileiros já tenham incursionado com sucesso por aquele país, prospectando oportunidades, a verdade é que os primeiros passos desse relacionamento comercial somente estão sendo dados agora. Há a dificuldade da comunicação, o quase total desconhecimento da sociedade chinesa em relação ao Brasil e a distância que separa os dois países. Além disso, a imagem do exportador brasileiro foi maculada com o recente imbróglio dos navios carregados de soja contaminada por fungicida, refugados por compradores chineses.
Como já disse, a parceria Brasil-China apenas começa a nascer e muitos obstáculos terão que ser removidos para a plenitude do processo. Temos ainda que entender aquele gigante e suas complexidades, cujo PIB chega a US$ 1,3 trilhão (o triplo do Brasil), detendo 5% de participação no comércio mundial (contra 0,9% dos brasileiros) mas com uma renda per capita três vezes menor que a nossa.
Qualquer abalo na economia chinesa terá graves consequências sobre os preços das principais commodities. Embora haja algum indício, oxalá não aconteça por lá o ocorrido no Japão, onde o ''boom'' imobiliário acabou por arruinar o sistema financeiro; por outro lado, sabe-se ainda que o país detém muitas estatais deficitárias que, ao exaurir grande soma de recursos, estariam impondo dificuldades aos bancos chineses.
Por fim, sobre as sempre comentadas possibilidades para o álcool, há sinalização de receptividade por parte dos chineses em adicionar o produto à gasolina, a exemplo do que pode fazer o Japão.
* Luiz Lourenço, presidente da Cocamar Cooperativa Agroindustrial, integrou a recente comitiva de empresários em visita oficial à China, acompanhando o presidente Lula


