OPINIÃO DO LEITOR - O dia em que o corte de verbas ajudou a pesquisa
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 16 de abril de 2004
Marcos Tosi (*) 
Faz sete anos neste mês de abril. Diante da necessidade de cortar verbas, o governo de Ontário tomou uma decisão radical que alterou o mapa da pesquisa na maior e mais rica província do Canadá.
Numa canetada, o orçamento da divisão de pesquisa da Secretaria de Agricultura perdeu um terço de toda sua verba.
Mas o enxugamento monetário veio acompanhado de uma reengenharia administrativa que resultou na consolidação da Universidade de Guelph, a 150 km de Toronto, como o maior centro de pesquisa agrícola do Canadá. Vale a pena refletir sobre esta história.
O desafio era fazer o corte orçamentário reduzindo ao máximo o impacto na qualidade dos serviços de pesquisa. Surgiu então a idéia de combinar a divisão de ensino e pesquisa da Secretaria da Agricultura com o departamento similar da Universidade Estadual de Guelph, que já era um centro de excelência na área.
Seria como se o nosso IAPAR fosse extinto, e a Universidade Estadual de Londrina ganhasse, da noite para o dia, 386 novos funcionários, três faculdades agrícolas, um laboratório de pesquisa de alimentos e um instituto de horticultura. Foi o que aconteceu em Ontário. E para fazer frente às novas despesas, os repasses anuais do Governo do Estado aumentaram de R$ 72 milhões para R$ 118 milhões, já descontado o corte orçamentário pretendido.
Com a incorporação, foram eliminados trabalhos duplificados. Os custos administrativos diminuíram em 60%. As taxas de exames laboratoriais e a receita de produtos e serviços, que antes iam para o caixa geral do governo, passaram a ficar na própria universidade, que tem liberdade para fazer negócios com a indústria e o setor privado. Hoje o governo estadual ainda é o maior contribuidor individual no orçamento de Guelph, mas a universidade conseguiu formar um invejável portfolio de investidores.
A Universidade de Guelph vai investir neste ano 230 milhões de reais em pesquisa científica, 75% voltados para o setor agropecuário. Cerca de R$ 82 milhões virão da Secretaria da Agricultura, outros R$ 37 milhões do Governo Federal, R$ 38 milhões de fundações diversas, R$ 36,5 milhões da indústria, R$ 29 milhões de outras agências do governo estadual e R$ 8,8 milhões de ONGs.
E as torneiras não têm secado; ao contrário, de um ano para outro a alocação de recursos cresce a uma média de 6,5%.
O segredo da satisfação dos investidores é a vocação da universidade para fazer pesquisas com aplicações práticas, seja para a economia, o desenvolvimento sustentável ou a saúde humana. Alguns exemplos falam por si mesmos. O professor Istvan Rajcan, do Departamento de Agricultura, comanda uma equipe que tenta desenvolver uma variedade de soja rica em isoflavona, que poderá ajudar a prevenir a osteoporose e o câncer de mama; a pesquisa é financiada em parte pela Associação de Sojicultores. O professor Steve Leeson, do Departamento de Pesquisa Animal, descobriu que adicionar pétalas amarelas de uma flor canadense à alimentação de galinhas poedeiras resulta em ovos com alta concentração de luteína, um pigmento que ajuda a prevenir catarata e degeneração do globo ocular; a investigação científica recebe recursos da Associação dos Avicultores.
Por mais doloroso que possa ter sido num primeiro momento, o corte de verbas de sete anos atrás, acompanhado de uma reestruturação logística, foi uma poda de sucesso. Os frutos estão aí. Do limão fez-se a limonada.
* Marcos Tosi, jornalista da Federação da Agricultura do Paraná (FAEP), esteve no Canadá no mês passado como bolsista do Instituto Interamericano para Cooperação Agrícola (IICA), ligado à Organização dos Estados Americanos (OEA).


