‘‘Brasil preocupa fazendeiros dos EUA’’. O tema tem sido motivo de reportagens. Os americanos estão temerosos de que nossa agricultura possa exercer um poder dominante num futuro próximo determinando os preços de diversos produtos.
  O avanço da soja, do etanol, da carne e do suco de laranja tem sido barrado através de medidas comerciais, sanitárias ou protecionistas. O recente problema da soja com o mercado chinês nos mostrou como se deve comercializar para se obter vantagens da fraqueza do adversário e o mesmo está ocorrendo com relação à carne.
  O mercado interno é extremamente difícil para os produtos primários com poucas e enormes empresas compradoras dominando o mercado.
  O café é ‘‘sui generis’’ pois é produzido por países pobres para consumo de ricos do hemisfério norte. Não somos concorrentes na produção, o que abre a possibilidade de negociações nas quais poderíamos levar enorme vantagem.
  Mas falta uma política definida. Corre-se atrás do crédito para resolver problemas imediatos e não há soluções estruturais de longo prazo. O setor produtivo tem dado armas ao mercado para que aumente a manipulação dos preços. Os últimos episódios foram a liberação de leilões de café dos estoques governamentais para abastecer as indústrias, no total de 80 mil sacas mensais e os malfadados 980 mil sacos que estão voltando ao mercado, daquiridos pelo governo há menos de um ano para ‘‘regular’’ o abastecimento.
  Estas atitudes facilitam as manobras especulativas, num momento que parecia favorável ao aumento dos preços. A queda dos últimos dias foi inacreditável. Medidas do governo que esquecem a lei da oferta e procura estão prolongando a crise do café que já dura cinco anos.
  O presidente Lula disse, em Nova York: ‘‘Em vez de reclamar que os negociadores americanos são duros, nós é que temos que deixar de ser moles’’. Isto vale para todos os produtos primários.
  O Brasil detém 33% da produção mundial de café e 40% da produção do arábica o que lhe confere um poder enorme sobre o mercado. Mas não é exercido.
  O que queremos são preços melhores e não créditos impagáveis. Como disse o embaixador Rubens Ricupero na UNCTAD: os países pobres têm que ser criativos. No café a criatividade passa pela rotulação e normatização da qualiade do grão cru, que trarão dificuldades saudáveis ao mercado, elevando os preços.
  O Brasil precisa ser duro nas negociações e encontrar novas formas de comercialização para sair do imobilismo comercial.

(*) Presidente da Associação Brasileira de Café Arábica (ABCA)

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