OPINIÃO DO LEITOR - Depois de Cancún
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 03 de outubro de 2003
Polan Lacki (*) 
Na reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC) realizada em Cancún, se repetiu aquilo que todos já sabemos, mas fingimos não saber: os países ricos continuarão subsidiando e protegendo seus agricultores.
Os países pobres continuarão sem força política para impedir que isso continue. Esta realidade já foi demonstrada tantas vezes que parece incompreensível que ainda continuemos perdendo tempo, mendigando decisões que dependem da boa ou má vontade dos governos dos países ricos.
Será que a eliminação de tais artificialismos é imprescindível para que os agricultores latino-americanos possam ingressar nos mercados ricos? Definitivamente, não. Temos ao alcance das nossas mãos uma solução mais eficaz e definitiva para conquistar, com nossa eficiência produtiva, o ''passaporte'' para os mercados internacionais e, simultaneamente, para desestimular que produtos agropecuários subsidiados ingressem nos nossos países.
A nossa competitividade depende principalmente da capacidade dos nossos agricultores em oferecer produtos de boa qualidade e com baixos custos de produção e de distribuição. Isto significa que os agricultores mais eficientes são, e continuarão sendo, os menos afetados pelos referidos artificialismos.
Então, sejamos objetivos: o tempo e o esforço que durante anos aplicamos, sem obter nenhum resultado concreto, em protestar e negociar aquilo que os países ricos consideram inegociável, deveríamos aplicá-los em conseguir que as nossas vacas, em vez de produzir 4 litros de leite por dia, produzam 30, tal como o fazem as dos países ricos.
No caso do trigo, que os nossos triticultores, ao invés de colher 2.090 kgs/ha, obtenham 5 mil/kg, tal como o fazem os chilenos ou 8 mil/kg, como o fazem, em média, franceses e alemães. Os nossos produtores de milho, em vez de colher 3.300 kgs, produzam 10.000 kgs/ha, como o fazem os americanos. Com esse milho, somado à soja, inundaríamos os países desenvolvidos com carne, leite e seus derivados, a custos competitivos, compensando efeitos negativos do protecionismo e subsídios.
Se os agricultores formassem grupos para adquirir os insumos e vender colheitas em conjunto, seríamos altamente competitivos, mesmo que os países ricos mantivessem as suas atitudes de intransigência.
Em vez de continuar lamentando as ameaças dos competidores, deveríamos adotar uma atitude construtiva de tirar proveito das oportunidades da nossa agropecuária, entre elas a abundância e baixo preço da terra, mão-de-obra, produção de carne a pasto, três colheitas de grãos ao ano, tecnologias que já estão disponíveis, porém ociosas e sub-utilizadas devido à debilidades dos serviços de extensão rural, entre outras.
Tudo isto depende dos próprios agricultores, com a única condição de que os governos lhes proporcionem conhecimentos necessários para corrigir as ineficiências tecnológicas, gerenciais e organizacionais.
®MD77¯(®MDNM¯*) Engenheiro agrônomo, participou do Programa de Desenvolvimento Rural da FAO. E-mail: [email protected] - site: http://www.polanlacki.hpg.com.br


