A manipulação genética é a maior conquista científica do ser humano. Ela abre infinitas possibilidades para a ciência em diferentes campos e, num futuro breve, mudará a perspectiva de desenvolvimento da humanidade. Ciência à parte, tomar a decisão de plantar soja transgênica neste momento é outra história.
A discussão não passa pela produção em sí, pela facilidade que representa o cultivo da variedade ou pela tecnologia; muito menos deveria passar pelos tribunais. O aspecto central da discussão deve ser o mercado e, num plano secundário, a ética.
Analisemos a questão do mercado. Qualquer negócio para sobreviver necessita clientes que queiram comprar. Neste caso, os transgênicos ainda são vistos pelos consumidores com reserva. Muitos os evitam e muitos não os consomem por decisão pessoal ou influenciados por formadores de opinião. Principalmente, entre os consumidores dos países ricos, a rejeição para os produtos ''não naturais'', só tem aumentado. Por isto, os mercados dos produtos considerados ''mais naturais'' têm aumentado nos útimos 10 anos.
O fato de que o material transgênico não adiciona à qualidade do produto (mais rendimento, proteína, óleo, etc.) e os riscos dos transgênicos para a saúde não estão devidamente equacionados, provoca discussões e rejeições, de carácter técnico, ideológico ou ético, em grupos ou organizações importantes de consumidores e de formadores de opinião a nível mundial.
O caso da carne bovina na UE depois da vaca-louca é um exemplo da força do consumidor que deveria ser levado em conta. O consumidor europeu sempre preferiu a carne fina e suave de animais europeus jovens criados em confinamento. A partir da comprovação de que o mal estava ligado ao reaproveitamento de alimentos de origem animal, o mercado prefere a carne de animais de puro pasto, ou rastreado, e está disposto a pagar mais pelo produto. O crescente mercado para os cafés e outros produtos rotulados como naturais ou ambientalmente limpos demonstra que a preferência dos consumidores dos países ricos vai em outra direção.
No caso dos produtos transgênicos, parece que o temor persistirá até provas em contrário. Portanto, deverá ser um mercado mais restrito, de maior risco, menos sustentável. A qualquer surto de uma doença velha ou nova, em animais ou humanos, com certeza entrará na discussão o transgênico. O mercado sofrerá!
Os favoráveis ao plantio da soja transgênica no Brasil argumentam que no mundo tem muitos países que compram este produto sem restrições. É certo. Somente que a maioria são países do mundo faminto, ôemergente" ou da ex-cortina de ferro. Países sem dinheiro, sem crédito, politicamente instáveis, em resumo, mercados de risco.
Outros argumentam que os países árabes comprariam carne de aves alimentadas com soja transgênica sem nenhum problema. Pode ser correto. No entanto, bastaria que um líder musulmano comentasse que alimentar-se com produtos ônão naturais" está contra suas leis religiosas para provocar uma crise de proporções gigantescas na agroindustria avícola do Brasil.
Outros ainda, argumentam que em caso de restrição de algum mercado pode-se separar a produção transgênica da não transgênica. Como? A separação é economicamente impossível. Toda a comercialização da soja brasileira, da colheitadeira ao terminal do porto, é a granel. A separação implicaria ter toda a estrutura em dobro. Ademais, necessitaria fiscalização, desde a semente até o porto, para evitar aqueles que, mesmo produzindo soja transgênica, tentariam passá-la como produto não transgênico. Uma eventual mistura acidental num armazém transformaria todo o seu conteúdo em soja transgênica, para efeitos de comercialização. A separação das safras representaria um aumento brutal de custos de comercialização, retirando uma possivel vantagem inicial de um custo de produção mais baixo. Sem nenhuma dúvida, o dia em que um certo número de produtores plantarem soja transgênica toda a safra brasileira, para fins de mercado, será considerada transgênica.
Ademais, o mercado da soja já é apertado, todos concordam com isso. Então, para que meter-se em uma camisa de força de um mercado ainda mais limitado, por uns porcentos de redução inicial de custos ou alguma facilidade na produção?
Do ponto de vista ético, guardemos nossas forças para lutar pela liberação de plantio de materiais transgênicos, quando estes produtos apresentarem visíveis vantagens em termos de rendimentos e qualidade para a nutrição da humanidade; quando eles representarem uma real possibilidade de reduzir a inseguridade alimentar no mundo e não somente a possibilidade de controlar as ervas daninhas mais facilmente com um determinado tipo de herbicida. É muito risco por pouca coisa!
Os produtores brasileiros devem ter claro que a chave para o futuro de sua produção é a vontade do consumidor. Os políticos de Brasilia devem ter claro a importância de ter um mercado sustentável para a soja brasileira para ajudar a mudar o país. Sem dúvida, para tomar as decisões que se necessitam devemos seguir os sinais do mercado internacional e as bandeiras de consumo levantadas pelas organizações que formam opinião a nivel global.
(*) Marcos J. Vieira é engenheiro agrônomo, consultor em Agricultura Sustentável. Comentários: [email protected]

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