OPINIÃO
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 12 de maio de 2006
Amélio DallAgnol 
Participei, recentemente, do Rally da Safra, um giro por mais de 5.000 km pela região Central do Brasil, nossa principal área produtora de soja. O que vi e ouvi não é bom e sinaliza para uma crise sem precedentes desde que a soja se estabeleceu no correr dos anos 70, como a mais importante cultura do agronegócio brasileiro. O custo de produção cresceu perigosamente, como conseqüência do incremento no preço dos insumos particularmente fertilizante, fungicidas e diesel enquanto o ganho do produtor, quando existente, foi reduzido a valores irrisórios pelo câmbio defasado, já que o valor de uma saca de soja, em dólares, está até bom, considerando os altos estoques existentes, originados pelas duas últimas supersafras americanas.
Com raras exceções, o clima foi favorável para uma boa colheita, mas, em contrapartida, favoreceu uma maior incidência da ferrugem asiática, doença que evoluiu, em muitas regiões do Centro-Oeste brasileiro, para a condição de epidemia. O intenso ataque dessa doença, exigindo tratamento ainda na fase vegetativa, estava restrito à região de Primavera do Leste, no Sudeste do Mato Grosso. Nesta safra, essa necessidade se alastrou para outras regiões e ameaça toda a área produtora de soja do País. Isso inviabilizaria o nosso principal cultivo, pelo alto custo representado por quatro a cinco pulverizações médias por safra, a menos que haja uma forte reação positiva do mercado, o que não é esperado em curto prazo. O produtor já se pergunta: não seria racional tratar a ferrugem da soja como fazemos com a aftosa bovina, exigindo medidas oficiais de controle de igual calibre?
A solução mais racional para sanar o problema está no desenvolvimento de variedades resistentes à doença, o que não acontecerá em curto prazo. Embora a Embrapa, junto aos seus parceiros, já tenha materiais genéticos promissores quanto à tolerância ou resistência a essa doença, os mesmos não serão variedades comerciais antes de cinco ou, até, 10 anos. Enquanto isso não acontece, a solução passa pelo controle químico, cada vez mais necessário e caro. Outra tentativa que poderia minimizar o problema, seria a restrição/proibição do cultivo na entressafra, retirando a ponte verde que carrega a semente do fungo de uma safra para a outra.
Diz a sabedoria popular que conselho só se dá a quem pede. Ninguém pediu, mas seria racional alertar o produtor sobre um gargalo no seu negócio agrícola, que não passa pelo processo produtivo onde ele se mostra bastante eficiente mas pela ineficiente utilização dos mecanismos de gestão da propriedade, principalmente a comercialização. Muitas das soluções para contornar a crise porque passa o setor agrícola particularmente as vinculadas com o agronegócio da soja serão apresentadas e debatidas no IV Congresso Brasileiro de Soja, a realizar-se no período de 5 a 8 de junho, em Londrina, PR. Compareça, ouça os 27 conferencistas convidados, converse com eles, com o Banco do Brasil e com representantes de empresas fornecedoras de insumos, sobre como garantir bons preços para a soja que você ainda não plantou.
AMÉLIO DALLAGNOL é engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa Soja


