OPINIÃO
Soou o alarme China
Roberto Nogueira Ferreira (*)
Os italianos fizeram soar o alarme China. Em pouco mais de um mês de 2005, a entrada de calçados chineses na Itália cresceu 600% em volume e 405,6% em valor, com redução de 27,8% no preço. Trata-se de uma situação insustentável, afirmou Rossano Soldini, presidente da Associazione Nazionale Calzaturifici Italiani (Anci), para emendar elevando o tom: a China está claramente usando o dumping de valores, porque as moedas deles estão desvalorizadas; o dumping social, porque não garante nenhum direito aos trabalhadores; o dumping ambiental, porque descarrega impunemente refugos industriais sem nenhuma precaução.
O que o presidente da Anci disse é o que se houve ''a boca pequena'' no Brasil, em qualquer encontro de calçadistas e curtidores. Ainda assim, o governo brasileiro recém reconheceu a China como economia de mercado, com todas as implicações que isso representa junto à OMC.
O fluxo das importações chinesas de calçado levará ao desmantelamento da manufatura européia e italiana e perda de mais de 12.500 empresas (das quais 7.300 italianas) e 320.000 trabalhadores na Europa (dos quais 103.500 italianos) afirmam os calçadistas italianos.
Seria diferente a ameaça chinesa ao mercado brasileiro? Dizem os industriais que o risco é o mesmo, em maior ou menor proporção. Acrescento um agravante: os chineses vão invadir o mercado brasileiro com calçados fabricados a partir do couro brasileiro, que para lá é exportado predominantemente em forma primária.
Em 1999, a importação brasileira de calçados da China foi de US$ 17,4 milhões; nos últimos três anos saltou de US$ 26,7 milhões em 2002 para US$ 31,9 milhões em 2003 e fechou 2004 em US$ 47,7 bilhões. Crescimento de quase três vezes nos extremos. Já a exportação de couro brasileiro para a China saltou de US$ 5,4 milhões em 1999 para US$ 60,8 milhões em 2004. Crescimento superior a 10 vezes. Estes dados são restritos à China, sem incluir, por exemplo Hong Kong, outro extraordinário destino do couro brasileiro.
O alarme China também já soou no Brasil, segundo Carlos Alberto Brigagão, presidente da Sândalo, e avançará no espaço e no tempo, sobretudo porque há uma omissão oficial generalizada sobre este fenômeno, que atinge também algumas lideranças empresariais.
Os calçadistas italianos estão pedindo às autoridades daquele País que acionem os procedimentos anti-dumping ou de proteção previstos na OMC. Na semana que inicia-se em 21 de fevereiro começaram as primeiras reuniões entre autoridades e fabricantes italianos, com o objetivo de definir o rumo a tomar contra a invasão de calçados chineses na Europa, que põem em risco a indústria italiana.
Enquanto isso, no Brasil...
(*) Representante da Couromoda em Brasília, consultor de empresas e diretor da revista Courobusiness





