OPINIÃO
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2005
Guus Laeven (*) 
Os últimos anos não foram fáceis para os produtores de leite do Brasil. A equação preços baixos/custos em alta representou a saída de muitos da atividade e a deterioração do patrimônio de outros a ponto de se perder o orgulho de produzir um alimento de primeira necessidade, essencial à saúde.
Mas o cenário está mudando. Podemos citar inúmeros fatores, mas um, em especial, é determinante: a profissionalização dos produtores, que cada vez mais administram seus projetos de maneira empresarial, analisando riscos e oportunidades. Tanto é verdade que nossa produção passou de 18 bilhões de litros em 1998 para 23 bilhões de litros previstos para 2004. E mais: o País virou exportador. Dados da CNA indicam que em 2004 os embarques de leite chegaram ao equivalente a 350 milhões de litros/ano, com receita superior a US$ 85 milhões.
É importante ressaltar que as exportações não são apenas de produtos lácteos. Já estamos comercializando sêmen, embriões e até animais com países vizinhos. Entre as raças leiteiras, o gir leiteiro tem um grande mercado na América Latina e a presença do Brasil em exposições agropecuárias, visitas técnicas e contatos mais próximos tem proporcionado resultados surpreendentes. Apenas minha empresa exportou 150 mil doses de sêmen bovino em 2004.
Por sua dimensão, nível tecnológico e trabalho sério, a pecuária leiteira tem grande potencial e os próximos anos devem confirmar a recuperação que está em curso. Sim, faltam regras mais claras, a informalidade existe. Mas esses obstáculos podem ser superados, com o fortalecimento das cooperativas, a melhor distribuição de renda, contratos de fornecimento e a modernização no relacionamento entre indústria e produtor, estabelecendo como moeda o próprio leite. Para tanto, são fundamentais a união dos produtores e a oferta de leite de qualidade superior.
Oferecer qualidade para o consumidor final, porém, não é apenas tarefa do produtor. Todos os elos da cadeia láctea devem fazer sua parte e oferecer soluções para o aumento de produtividade e lucratividade. E a genética é um deles.
Dados da Asbia apontam que entre 1999 e 2003 as vendas de sêmen bovino para leite aumentaram apenas 5,75%, passando de 2.417.886 de doses (1999) para 2.557.055 de doses (2003). Nesse mesmo período, o mercado total de sêmen cresceu expressivos 34,5%, passando de 5.568.194 doses para 7.473.259 doses. Sem dúvida por trás dessa redução dos números de leite está a situação econômica difícil da atividade nos últimos anos. Mas, com a recuperação dos preços a partir de 2002 e, mais intensamente, em 2004, o cenário começa a mudar. Tanto é que entre 2002 e 2003 a venda de sêmen para leite aumentou 7,7%. Os dados referentes a 2004, ainda não fechados, devem mostrar nova e consistente elevação, reflexo direto da melhoria dos preços ao produtor.
Além do aumento da rentabilidade, a inseminação artificial gera outros ganhos ao produtor. Por meio do acasalamento genético é possível corrigir deficiências do rebanho, sem contar a herança que a técnica pode deixar. O sêmen, desde que industrializado adequadamente e conservado em condições ideais, não tem prazo de validade. Assim, é possível manter a viabilidade reprodutiva do reprodutor por longos períodos.
Mais do que isso é uma técnica democrática, viável economicamente para pequenos, médios e grandes produtores. E que pode colaborar decisivamente no momento em que há sinais claros da remuneração por qualidade, crescem as exportações de produtos lácteos e de genética e os preços
melhoram.
(*) Diretor-presidente da Lagoa da Serra, Sertãozinho (SP)


