Oswaldo Petrin

  Negligência, amadorismo, falta de compromisso, irresponsabilidade. Tudo isso contribuiu para esse desatre econômico da aftosa. Mas o que pesa mesmo é o preconceito do atual governo com relação ao agronegócio. A ideologia permeia as atitudes do Planalto. Deve haver ministro que ainda enxerga a pecuária como coisa de rico. Ignora que a verdadeira riqueza gerada por este setor é injetada em toda economia do Brasil e não apenas para quem está na ponta da produção (o campo), no meio da cadeia (a indústria) ou na outra ponta do processo (o consumo). Ignora que tudo isso é movido por pessoas, principalmente trabalhadores. Em qualquer regime político produção e comercialização devem ser tratados como negócio, com profissionalismo - independente da ideologia do governo e acima do espectro ideológico em que se enquadrem os ministros.
  O estrago técnico e financeiro causado pela aftosa ao País (e não à iniciativa privada que esse governo desdenha) é imensurável. Ele se dá no volume e no tempo. Além do prejuízo imediato será necessário muito trabalho para reconquistar o mercado lá fora. Não adianta dizer que houve falha no manejo do gado; tampouco afirmar que o foco de aftosa foi um ato criminoso (o vírus teria sido ‘‘plantado’’). Sejamos práticos: se a exportação de carne é importante para o País, o governo federal tem que assumir o controle da doença, pois esta é uma condição para manter o negócio.
  A Folha de Londrina e a Folha Rural, em várias oportunidades, alertaram para o grande risco da disseminação da aftosa, diante de uma longa fronteira seca sem vigilância. Os alertas não vinham das nossas cabeças: eram fazendeiros do Paraná com negócios em Mato Grosso do Sul, e leitores do Estado vizinho, que passavam informação para este jornal. Em mais de uma oportunidade escrevemos que, em matéria de aftosa, o Brasil tem mais sorte do que juízo. Agora vemos que não foi a fronteira escancarada que permitiu a entrada do vírus, mas o descuido, o relaxo. Não adianta o ministro da Agricultura afirmar - como saiu nos jornais esta semana - que havia reclamado do orçamento irrisório à defesa sanitária. Isso reflete a inconsistência de sua gestão. O governo não se preocupa em apoiar o setor produtivo e o Ministério da Agricultura, tão inócuo nos tampos atuais, não consegue reverter a situação.
Em meio às notícias sobre aftosa, um produtor telefonou emocionado para lembrar à Folha que sente saudade do tempo em que o controle preventivo era levado a sério, em que os ministros faziam a aplicação simbólica. Recordou as campanhas no Paraná em que lideranças sérias fazim mutirão para divulgar a vacina. Os fazendeiros atendiam apelos para doar vacinas aos criadores ‘‘mais fracos’’. O produtor também lembrou dos lançamentos regionais das campanhas. À frente estavam Seab, Faep e Ocepar. Seus dirigentes ‘‘agitavam’’ e todos entravam no entusiasmo. Foi assim que o Paraná conquistou exigentes compradores no mercado externo. Foram oito anos de luta. Agora é começar tudo de novo.

OSWALDO PETRIN é chefe de redação da Folha de Londrina

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