Você sabe que está diante de um projeto sério quando não ouve trombetas, foguetórios ou promessas mirabolantes cada vez que ele é apresentado. Assim são as Redes de Referência para a Agricultura Familiar, programa desenvolvido pela Empresa Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) e pelo Instituto Agronômico do Paraná (Iapar). Ao longo de sete anos de esforços silenciosos, completados em junho último, profissionais dos dois órgãos lograram resultados notáveis entre as mais de 200 pequenas propriedades assistidas, passando à margem da propaganda institucional do Estado.
O convite feito à Folha para acompanhar extensionistas e pesquisadores numa maratona de visitas a 12 sítios paranaenses só reforça tal postura: no lugar de uma enxurrada de números pomposos que pouco dizem, foi oferecida à reportagem a chance de conhecer de perto a realidade de famílias acompanhadas pelas Redes. Os pequenos agricultores, gente que não costuma usar máscaras, expuseram suas conquistas lado a lado com as frustrações e problemas ainda a resolver. Os profissionais usaram da mesma franqueza: ''Ele é tão sortudo que metade das coisas que fizemos não deu certo'', ironizou um extensionista à certa altura da excursão, referindo-se ao produtor visitado.
As equipes também optaram por escolher propriedades representativas do trabalho desenvolvido, ao invés de modelos pontuais de sucesso - daqueles que aparecem em anúncios governamentais ultracoloridos e milionários no horário nobre da tevê. A decisão tem tudo a ver com a própria essência do projeto, cujo objetivo é incentivar melhorias que se sustentem a longo prazo e garantam a permanência do homem no campo. Qualquer indivíduo com os pés no chão sabe que esse tipo de ideal não se atinge do dia para a noite, e que no caminho há tombos de toda espécie.
Como a lógica das administrações públicas no Brasil é a de tapar buracos, apagar incêndios, responder com ações que durem pelo menos até as próximas eleições, projetos como o das Redes de Referências acabam sendo relegados. Justamente quando os resultados se revelam com mais consistência, quando vários erros já foram corrigidos e quando o trabalho prova que pode ser expandido, vêm os golpes imediatistas. A coordenação estadual das Redes informa que a maior parte dos profissionais que atua no programa já não pode se dedicar exclusivamente a ele. Existe uma pressão constante para que os extensionistas responsáveis pelo trabalho sistêmico nas propriedades sejam deslocados para tarefas institucionais.
Há mais de 10 anos sem concurso público para a Emater e o Iapar, os dois órgãos acabam tendo que ceder às pressões. A falta de técnicos é uma realidade em todo o Estado, e já provoca fechamento de escritórios da Emater em alguns municípios. Como as Redes de Referência poderão ampliar o número de cidades e famílias acompanhadas, se falta material humano até para a demanda atual? Interessante seria que um trabalho similar ao das Redes fosse realizado no seio da própria administração estadual. Analisado como um todo, com seus recursos e potencialidades, talvez o governo descobrisse o que realmente é prioritário para mudar a realidade do Paraná.

VANESSA NAVARRO é jornalista da Folha de Londrina e viajou pelas propriedades paranaenses a convite da Emater e do Iapar

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