Safra 97 em perigo
Ágide Meneguette
Se o Governo Federal não intervir na comercialização da safra deste ano, prenuncia-se um desastre semelhante ao de 1995, quado os produtores rurais do País perderam 25% de sua renda.
Quando se exige a intervenção do Governo no mercado agropecuário, não é lamúria de produtor rural saudoso do velho paternalismo do Estado que não existe mais e que nunca voltará. É preciso, de início, ter consciência da imperfeição do mercado agrícola. É imperfeito porque, num só momento, milhões de produtores rurais estão ofertando os mesmos produtos a um número reduzido de grandes compradores. Desta forma estes compradores, que ainda podem contar com a oferta externa a preços subsidiados, estão a cavaleiro para ditar preços.
Neste quadro, o Governo deve ser o agente do equilíbrio - assim é nos Estados Unidos, no Canadá, na Europa e no Japão. É a ação dele, Governo, que corrige a imperfeição de mercado e transmite uma certa igualdade de condições entre o poder da oferta e o poder da demanda, sem a qual os produtores rurais são vitimas da depreciação de seus produtos, e obrigados a vendê-los na bacia das almas, por qualquer preço.
Isto foi o que ocorreu em 1995, quando o Governo Federal não cumpriu a lei que o obriga a sustentar os preços mínimos, intervindo no mercado, comprando ou fornecendo os recursos para financiamaentos aos produtores. O que se viu foi um desastre, do qual até hoje os agricultores não puderam se recuperar.
Contudo, é possível que se repita este ano, porque são poucos os recursos que o Governo colocou à disposição dos produtores e os outros instrumentos de apoio desconhecidos e não testados. Nossa preocupação é muito grande, e foi a aflição que nos levou a juntar os esforços da Faep, Sebrae, Ocepar e Bolsa de Mercadorias de Maringá, para a realização de uma teleconferência no próximo dia 30, às 8h30, que poderá ser sintonizada por antena parabólica nos canais 11 e 15.
Nesse dia, a convite dessas organizações, o Secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, professor Guilherme Dias, e o diretor de Crédito Rural do Banco do Brail, Dr. Ricardo Conceição, falarão sobre a comercialização da safra agrícola 96/97, e os instrumentos de que o Governo dispõe para encaminhá-la.
Convidamos as pessoas certas, conhecedoras dos problemas agrícolas, e de grande peso na formulação das políticas para a agropecuária. O que queremos saber deles é como o Governo vai se comportar nesta safra e, ao mesmo tempo, alertá-los de que, se nada for feito, os preços dos produtos de mercadointerno vão despencar como em 1995.

O Governo
deve ser
agente do
equilíbrio


O alerta está sendo feito com antecedência - desde o final do ano passado a Faep tem procurado as autoridades federais para dizer que é preciso fazer algo, e com urgência.
Movidos mais pelos indicativos dos preços internacionais, os produtores apostaram nesta safra, estimada em 78 milhões de toneladas. Mas, se levar em conta a substituição de uma parcela da área de milho pela cultura da soja, de menor produtividade, a safra 96/97 é igual à colhida em 1995.
Vários problemas apontados naquele desastre da ‘‘âncora verde’’ persistem sem solução: a defasagem cambial continua penalizando exportações e facilitando as importações; o mundo desenvolvidio continua praticando exportações subsidiadas sem que as autoridades brasileiras se utilizem de instrumentos legais para a imposição de taxação compensatória (o algodão é prova disso); os financiamentos externos, de até 360 dias a juros baratos, dão às importações uma vantagem extraordinária.
Não se trata, portanto, de apenas remover entraves internos. É indispensável levar em conta a competição internacional e agir em legítima defesa dos interesses dos produtores brasileiros. Não é nada, não custa um tostão para o Governo. Basta restabelecer a igualdade da competição. E, no mercado interno, dar aos produtores o fôlego de que precisam para não terem que liquidar suas colheitas a preços vis, e dar aos compradores recursos a custos compatíveis, para que comprem e estoquem as matérias-primas de que necessitam, a custos e prazos das importações.
É pela gravidade do momento que considero essa teleconferência um acontecimento importante. Os produtores rurais devem assisti-la e, mais do que isso, interagir, formulando suas questões aos nossos dois convidados, que pela posição que ocupam, estão em condições de apontar caminhos e esclarecer as formas pelas quais o Governo pretende agir e apoiar a comercialização desta safra.
O autor é presidente da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep).

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