Jabuticabas não constituem a única singularidade brasileira. O País também apresenta uma inclinação única para reincidir em erros e desacertos que representam desperdício de tempo, energia e recursos. Tome-se a recorrência de problemas que o Brasil vem registrando na área da defesa sanitária.
A descoberta, no início deste mês de julho, de um novo foco da doença de Newcastle em uma granja no Rio Grande do Sul é apenas mais um capítulo na novela de problemas de ordem sanitária que o Brasil conhece nos últimos tempos. Apenas no governo Lula, quatro graves ocorrências foram assinaladas na área de defesa sanitária.
Em maio de 2004, a China suspendeu as importações de soja brasileira, sob a justificativa de que os carregamentos continham sementes tratadas com fungicidas - impróprias, portanto, para o consumo humano.
Depois da soja foi a vez da aftosa, constatada um mês depois (em junho) no Pará, cinco meses depois no Mato Grosso do Sul (em outubro) e no Paraná, em dezembro do mesmo ano. Por conta destas ocorrências 58 países mantém algum tipo de restrição à carne brasileira.
Não se pode atribuir exclusivamente ao governo a responsabilidade pela ocorrência de tantos problemas, até porque o pecuarista é personagem central nesta história, cabendo a ele a tarefa de vacinação de seu rebanho.
O mesmo não se pode dizer, entretanto, em relação ao enorme flanco que está sendo aberto em outro segmento do agronegócio brasileiro: o mercado de produção e exportação de gelatina.
O Brasil é o maior exportador mundial do produto, embarcando 28 mil toneladas anuais - o que representa perto de 10% de um mercado que movimenta cerca de US$ 3 bilhões anuais.
É preocupante, neste contexto, constatar que o futuro desta atividade, que gera empregos e divisas para o País, está ameaçado pela operação irregular de empresas que atuam de forma irregular, com base na emissão de certificados sanitários forjados ou falsos, também conhecidos como exportadores de ''raspas secas para o fabrico de gelatinas''.
Operando sob as mais precárias condições de higiene, utilizando-se muitas vezes de mão-de-obra forçada ou infantil e sem o menor compromisso ambiental, tais empresas operam ao arrepio da lei, colocando em risco o crescente e promissor mercado internacional de produtos à base de gelatina para o Brasil.
A atuação irregular dos clandestinos desestimula investimentos programados pelas empresas que atuam em conformidade com as determinações legais. Como resultado, diversos projetos de ampliação e modernização do setor foram postergados e várias empresas enfrentam dificuldades operacionais.
Além disso, os piratas da gelatina comprometem a já arranhada imagem da qualidade da produção brasileira em mercado internacionais, para os quais o País exporta o grosso de sua produção. Um maior rigor na fiscalização da atividade, não somente é desejável como imprescindível para que o Brasil mantenha sua posição de liderança no mercado internacional, gerando empregos e riquezas. Uma atribuição que cabe única e exclusivamente às autoridades da área sanitária.

PAULo REIMANN é presidente da Gelita South America

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