Os momentos difíceis da pecuária de corte, iniciada pelos baixos preços da arroba do boi e intensificada pela febre aftosa no Mato Grosso do Sul, ofuscou um pouco as dificuldades enfrentadas pela pecuária de leite em 2005, que enfrentou redução dos preços pagos ao produtor justamente na entressafra, período no qual a remuneração historicamente sobe. Essa situação decorre de vários fatores. Não dá para dissociar a realidade do mercado do leite da política econômica, com altas taxas de juros e câmbio desfavorável, que retrai o consumo interno e interfere diretamente na balança comercial, com valorização do real perante o dólar.
Apesar desse cenário, o agronegócio do leite cresceu em 2005, contribuindo para a riqueza do País. Um dado claro é que o produtor que nos últimos anos investiu em qualificação do rebanho e qualidade está colhendo os frutos desse investimento. Estudo da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) mostra que 42% dos produtores que investiram em ações de melhoria da qualidade do leite, especialmente com a instalação de tanques de resfriamento na fazenda, estão recebendo bonificação da indústria, justamente por oferecem leite dentro dos mais modernos padrões.
A Instrução Normativa 51, que estabelece novas normas para o leite comercializado no País, também gera expectativa positiva, pois se configura como uma importante conquista para o setor, assim como foi a reestruturação ocorrida na década de 90 em função do fim do controle de preços pelo governo. Desde então, a cadeia láctea caminha para a frente, ao sabor das demandas de mercado e da iniciativa dos produtores e da indústria de equipamentos, de maneira cada vez mais profissional. O reflexo ocorre nas fazendas, com a melhoria da gestão do negócio, inclusive de pequenos e médios projetos.
Nesse sentido, foi muito bem-vindo o primeiro superávit da balança comercial de lácteos da história, obtido em 2004, com lucro de US$ 11,5 milhões e novo resultado positivo em 2005, talvez um pouco inferior. Esse resultado renovou o ânimo da atividade, mostrando o seu potencial e invertendo a tendência de país importador, apesar de ser um dos maiores produtores de leite. Essa sensação ficou clara nas indústrias do setor que tem planos arrojados para o Brasil, de olho no potencial de crescimento da pecuária leiteira nacional e no mercado latino-americano.
O cenário é favorável, mas há problemas imediatos a resolver. Se por um lado atingimos recorde nas exportações, por outro os produtores ainda sofrem com a oscilação da remuneração. O que fazer? É preciso investir ainda mais em tecnologia, equipamentos de ordenha, genética e tecnificação, pilares que garantem melhores índices de produtividade, melhor qualidade do leite e, consequentemente, maior remuneração.

LUIZ CUTOLO é zootecnista e diretor da WestfaliaSurge

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