Segundo informações divulgadas pelo USDA (órgão equivalente ao Ministério da Agricultura dos Estados Unidos), no mês passado, os estoques mundiais de trigo atingiram os menores níveis que se tem registro. O clima seco vem gerando significativa queda na produção das lavouras norte-americanas e na Argentina, o que tem causado aumento nas cotações internacionais do trigo.
Na Argentina há, ainda, a limitação da exportação de trigo em grão, decretada pelo Governo Kirchner. Com isso, a cotação do trigo argentino deu um grande salto, chegando ao Brasil no valor de, aproximadamente, US$ 195,00.
Devido aos entraves da Argentina, que é o maior fornecedor do Brasil, teremos que comprar o produto em outros países como Estados Unidos e Canadá, pagando caro pela ineficiência de produção do País: em torno de US$ 250,00 a US$ 290,00 a tonelada. Este quadro revela que deveremos ter uma crise de falta de trigo, que afetará o preço final do produto ao consumidor.
A situação fica mais preocupante quando vemos que a dependência brasileira do trigo estrangeiro deverá aumentar, devido à queda na produção interna. O Estado do Paraná, maior produtor de trigo do País, deverá colher este ano 36% a menos, ou seja 1,7 milhões de toneladas (dados da Seab).
Com isso, o Brasil terá de buscar trigo em outros países, aproximadamente 80% do trigo que irá consumir, depositando no caixa dos triticultores estrangeiros mais de R$ 1,5 bilhão, dinheiro que deixará de circular na economia brasileira. Se empregado aqui, estaria contribuindo para a geração de emprego e renda para pequenos produtores brasileiros.
Está mais que na hora do Brasil buscar uma alternativa para reduzir sua dependência do trigo estrangeiro. O projeto de lei, do deputado federal Aldo Rebelo, que prevê a obrigatoriedade de adição de fécula/amido de mandioca na farinha destinada ao pão francês é a alternativa mais viável. Embora desagrade alguns industriais do setor do trigo, que tentam denegrir a imagem do produto, o próprio mercado já comprovou a viabilidade dessa mistura.
No ano 2002, quando faltou trigo no mercado internacional, e os preços aumentaram muito no Brasil, os setores de panificação, macarrão e biscoitos, compraram mais de 250 mil toneladas de fécula/amido de mandioca para adicionar em seus produtos, que foram consumidos em larga escala pelo consumidor brasileiro, e até do estrangeiro, que nunca perceberam qualquer diferença de sabor.
A fécula/amido de mandioca é um produto nobre, de alta qualidade, sem cheiro ou sabor. Ao contrário da farinha de trigo, que contém aditivos químicos, a fécula/amido de mandioca não tem em sua fórmula nenhuma mistura que possa prejudicar a saúde humana, tendo como importante diferencial o fato de ser um produto totalmente natural, que já é utilizado em algumas farinhas de trigo, como a que é destinada às donas-de-casa.
O setor de mandioca, no qual 75% de seus produtores têm áreas com menos de 10 hectares, e gera mais de um milhão de postos de trabalho no Brasil, poderá, com a aprovação deste projeto, contar com mais de 100 mil novos brasileiros envolvidos com a cultura, a partir dos postos de trabalho que propiciará.
O projeto de lei busca o benefício da população brasileira como um todo; ao contrário dos moinhos de trigo, que buscam, através da população brasileira, o benefício próprio.

JOÃO EDUARDO PASQUINI é presidente da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva da Mandioca e Derivados

mockup