OPINIÃO - O exemplo da sanidade avícola brasileira
PUBLICAÇÃO
sábado, 11 de dezembro de 2004
Ricardo Pereira (*) 
Para se adaptar a qualquer exigência de seus clientes, a avicultura necessita reinventar todo o seu processo, atuando em todas as competências que compõem o tripé composto por: nutrição, manejo e sanidade. O Brasil, muito provavelmente, foi o primeiro grande produtor mundial de aves a conseguir adequar seu processo produtivo às exigências do mercado internacional, especialmente ao europeu e japonês. E para tentar explicar tal feito, acredito que seja interessante discutir alguns aspectos que diferenciam a avicultura brasileira das outras grandes do mundo.
Assim, para se ter um processo de produção de alimentos de alta performance como a avicultura, cada uma destas competências (nutrição, manejo e sanidade), isoladamente, tem que ser de ponta.
Começando com a nutrição, um dos fatores determinantes para o sucesso brasileiro é a disponibilidade de milho e soja no Brasil. Porém, há outros países que dispõem destes em abundância e não conseguem obter o mesmo resultado de qualidade e de custo do Brasil. Por que será que a participação do frango brasileiro na União Européia nos últimos três anos tem sido tão forte e constante?
Muitos dirão que é porque nosso custo de produção é muito baixo, pois nossa moeda é desvalorizada. E se descontássemos os altos subsídios que os governos de outros países disponibilizam a seus produtores? Será que ainda assim o nosso sucesso estaria somente relacionado ao baixo custo? Duvido.
Quanto à sanidade, nos últimos 15 anos, a avicultura brasileira vem sendo especialmente desafiada. Quando comparamos o que há de disponível em equipamentos, produtos para saúde animal e serviços com outros países de peso na avicultura mundial, observamos que as ferramentas estão igualmente disponíveis, sem que ninguém esteja em desvantagem (exceção feita a várias drogas que nossos clientes exigem que não sejam utilizadas, mas que permitem seu uso em seus países).
Nossos clientes, especialmente os internacionais, são exigentes e proíbem o uso de diversos princípios ativos para o controle de doenças, sem recompensar adequadamente nossos produtores - mesmo quando há aumento no custo de produção. É como se diz: ''o cliente tem sempre a sua razão''.
No aspecto manejo, creio que temos uma vantagem competitiva a ser considerada. Manejo é basicamente ter a capacidade de adaptar uma determinada prática ao contexto encontrado, usando de muita flexibilidade, mas sem perder o foco no resultado que se busca. Por ser fruto da observação, o manejo é, também, uma grande oportunidade de avaliar se a nutrição e as medidas sanitárias estão exercendo seus papéis. E só se faz manejo bem feito quando se tem um grupo de profissionais interagindo e observando diariamente o processo produtivo. Este grupo de profissionais é composto de integrados, técnicos agrícolas, nutricionistas, veterinários, etc.
Assim, boa nutrição, boas estratégias sanitárias e manejo exercido por profissionais competentes formam uma base de sustentação diferenciada na avicultura mundial. Por isso entendo que a sanidade brasileira está entre as melhores do mundo, se não for a melhor, já que há pessoas que aceitam o desafio de fazer melhor todo dia, usando os mesmos recursos que estão disponíveis a todos os outros grandes concorrentes externos. Creio que o segredo está em como os recursos são utilizados e não quais recursos estão disponíveis. E quando se fala de como fazer, entra em cena a criatividade. E criatividade é marca registrada dos brasileiros.
(*) Diretor de operações de avicultura da Merial


