OPINIÃO - Na crista da onda
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sexta-feira, 25 de agosto de 2006
Amélio Dall'Agnol 
Faz 126 anos que a soja chegou ao país que já foi a terra da cana, do cacau e do café, mas que hoje, mais do que qualquer outra denominação, o Brasil merece ser reconhecido como ''O PAÍS DA SOJA''. E nem tanto pelo que ele já é, com seus 23 milhões de hectares de soja, mas pelo que ele ainda haverá de ser como a grande promessa de fornecimento do esperado incremento da demanda mundial de soja, cujo crescimento médio, nos últimos 40 anos, tem sido da ordem de cinco milhões de t/ano.
Está difícil pensar o Brasil sem a soja. Seria desconsiderar mais de 10 bilhões de dólares que a soja agrega anualmente à sua balança comercial, assim como, outros 50 bilhões de dólares que gera em benefícios indiretos representados, principalmente, por 4,5 milhões de empregos derivados da sua extensa cadeia produtiva que inclui a indústria de defensivos, de fertilizantes, de máquinas, assim como as empresas de transporte, de armazenagem, de processamento e de exportação, para não falar apenas do grande negócio que é o processo produtivo da soja dentro da porteira, onde 240 mil produtores brasileiros trabalham e vivem do seu cultivo.
A soja surfa soberana na crista da onda do complexo agroindustrial brasileiro. Em menos de meio século, ela evoluiu de uma cultura marginal de pequenos produtores do interior gaúcho, para a principal lavoura do País e tudo indica que sua hegemonia não será ameaçada em curto prazo, visto que o mercado está francamente comprador e o Brasil é o único país, entre os grandes produtores mundiais da oleaginosa, capaz de aumentar substancialmente sua área de cultivo, podendo mais do que dobrar sua atual oferta do grão no mercado mundial. Um, de cada quatro dólares exportados pelo complexo agroindustrial brasileiro provém da soja, sem considerar que a carne de frango e a de porco que exportamos, nada mais são do que soja, com valor agregado. Originária da China, a soja converteu-se num verdadeiro negócio da China, mas para o Brasil.
Apesar da queda no consumo de frango causada pela gripe aviária, afetando o consumo de soja, os consumidores retornarão e a demanda por soja continuará em alta, de vez que, quando um consumidor rejeita um tipo de carne, passa a consumir mais outras carnes, também dependentes da proteína de soja. Considere-se, adicionalmente, que também será estímulo ao consumo de soja a utilização do seu óleo na produção de biodiesel, substituindo o petróleo, cada vez mais caro, porque cada vez mais raro.
Mas, se o Brasil vai bem com as riquezas produzidas pela soja, o produtor vai mal. Seus custos de produção cresceram perigosamente e os ganhos, quando existentes, são desprezíveis. Ele fez a sua parte, gerando riquezas para o País na forma de empregos no campo e na cidade, de dólares com as exportações e de impostos pagos na compra de máquinas para o cultivo e a colheita. Em contrapartida, lhe sobraram dívidas impagáveis. Há quem afirme que o produtor sabe plantar e executa bem as tarefas dentro da porteira, mas falha na compra dos insumos e na venda da produção. Mesmo que isto seja verdadeiro para muitos produtores, existem outras causas, as quais não estão na alçada do produtor resolvê-las; o câmbio desfavorável, por exemplo.
Esperamos que a problemática atual do agronegócio brasileiro, nunca antes enfrentado a um conjunto de fatores tão desfavoráveis, tenha alertado os que fazem as políticas no Brasil e os motive a realizar mudanças eficientes e duradouras.
AMÉLIO DALL'AGNOL é engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa Soja


