OPINIÃO - Em defesa da produção
Os produtores resolvem ir à luta e exigir seus direitos, já que até hoje só foram convocados para controlar a inflação (todos os planos econômicos exigiram sacrifícios do setor, que bancou a recuperação da economia). Direito de produzir em paz, direito de participar de decisões que mexem com seus interesses. Direito e respeito, porque produzem comida, assunto de segurança nacional. E porque exportam, trazendo os dólares que o País tanto precisa. Dois bons exemplos de cidadania: o ''Tratoraço'', que levou centenas de manifestantes à Brasília, em julho, e, nesta semana, uma manifestação mais modesta na Assembléia Legislativa, em defesa do Porto de Paranaguá visando reduzir custos, que reduzem a competitividade do produto brasileiro.
Nos dois casos, uma demonstração de união em torno dos seus sindicatos e federações. Pequenos e médios produtores perderam muito por não encararem de frente quem os prejudica, uma política que pune a produção e estimula a transferência de renda. A agricultura não tem feito outra coisa a não ser transferir renda para bancos e para a indústria. Os bancos devidamente apoiados por um governo perverso.
Mas é o despertar político que pretendo destacar. O agricultor, um indivíduo cordato, começa a levantar a cabeça, e isto é altamente positivo. Até poucos anos atrás, essa gente mantinha seus pés fincados na terra e só se preocupava em produzir. Só que enquanto viviam de cabeça baixa, plantando lá no campo, nos gabinetes dos políticos seus direitos eram usurpados. Leis foram criadas à sua revelia, juros mantidos altos, preços dos insumos sem controle, enfim, toda uma série de consequências da falta de uma política agrícola.
Agora eles começam a reagir. Com posições firmes, um dia eles terão o apoio de outros segmento que é violentado em seus direitos, os consumidores. Falta-lhes falar mais à sociedade, que não é corretamente informada sobre o agronegócio, ela que está na outra ponta da cadeia. O dia que a sociedade urbana entender o papel da produção, tudo vai mudar. Não precisaria muito: se os produtores pudessem dispor de 0,05% dos bilhões que o governo federal gasta com a sua propaganda enganosa, em breve teriam um forte aliado urbano. Sem precisar mentir.
O agricultor, ao contrário dos políticos que não evoluíram (a não ser no sentido da corrupação), têm dado demonstração de competência na tecnologia e na gestão. O salto na produção agropecuária nos últimos 10 anos, que praticamente dobrou em produtividade, mostra que os produtores estão se tecnificando. E o Paraná não perde pelos países mais desenvolvidos. Na produção de soja, por exemplo, o Paraná é mais produtivo que americanos e argentinos. Um dos motivos é a utilização da tecnologia do plantio direto, da qual é pioneiro. Por tudo isso e muito mais, o paranaense do campo pode e deve bater no peito e exigir a contrapartida dos governos, principalmente em crédito e infra-estrutura, que não são de graça. Basta observar o custo do pedágio, uma exploração.
(*) O autor é chefe de Redação da Folha de Londrina





