O tratoraço que tomou conta da Esplanada dos Ministérios de Brasília, esta semana, se justifica pelo estado de abandono do setor agropecuário. Sustentáculo da economia e principal responsável pelos bons resultados da nossa balança comercial nos últimos anos, o setor passa por dificuldades advindas de fatores sobre os quais não tem nenhum controle ou capacidade de intervenção: questões climáticas, carência de recursos, custos financeiros.
  As dificuldades desse setor também passam pelas cooperativas, responsáveis que são por um terço da produção agropecuária do País. Como irmãs siamesas, o sorriso ou a dor de uma contagia a outra. Se o setor agropecuário vai bem, as cooperativas do ramo participam da festejada colheita. Mas se os tempos são de vacas magras, elas também sofrem os prejuízos. São contagiadas, como de resto pode também ser contagiada toda a economia.
  A quebra da safra deste ano resultou em perdas para os produtores rurais estimadas em R$ 10 bilhões. Se as cooperativas respondem por um terço do Produto Interno Bruto (PIB) agrícola do País, elas estão amargando a terça parte dessas perdas, algo da ordem de R$ 3,3 bilhões. Nenhum setor ou atividade econômica passa impunemente por prejuízo dessa ordem.
  Buscando reduzir esses impactos, temos batido às portas do Executivo e do Congresso Nacional. Fazemos ver a esses entes de governo as dificuldades de um setor que tem dado muito, mas que recebe pouco.
  Conseguimos a adoção de algumas medidas importantes, é verdade, mas ainda insuficientes para a solução dos problemas que, insisto, são comuns aos produtores e às cooperativas agropecuárias.
  A principal delas seria a recomposição do orçamento do Ministério da Agricultura, de forma a permitir que se volte a fazer política agrícola no País. O orçamento do Ministério, para este ano, é de R$ 550 milhões, dos quais R$ 350 milhões são consumidos pela pesquisa agropecuária. Sobram apenas R$ 200 milhões para atender a um setor que produz R$ 160 bilhões. E que enfrenta incertezas climáticas, elevados custos de produção, defasagem cambial, todo um conjunto de fatores que só contribui para reduzir renda e aumentar dívidas do setor, pois dificulta a quitação dos débitos.
  Um setor da importância do agropecuário não pode ficar a mercê dessas coisas. Nem as cooperativas agropecuárias, como a Cotrijal, que têm grande parcela de responsabilidade no desenvolvimento sócio-econômico do País. Por isso precisamos de regras claras, bem definidas, permanentes. Incertezas, já temos de sobra.
MÁRCIO LOPES DE FREITAS é presidente do Sistema OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras)

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